HISTÓRIAS  DA  NOSSA  TERRA

Dia das MaiasO "DIA DAS MAIAS"

por: Vivaldo Quaresma

A porta da minha casa apareceu decorada com um raminho de giestas enfiadas na caixa do correio, no primeiro dia de Maio. E, como eu, várias outras pessoas ausentes foram contempladas com este agrado na nossa aldeia.

Vivaldo QuaresmaA giesta, também conhecida por Maias, é um arbusto do género spartium junceum, uma espécie invasora que ocorre de forma espontânea na nossa região, cobrindo a paisagem nesta altura do ano com as suas flores aromáticas de um gracioso tom amarelo-vivo que tanto nos agrada.
Da mesma espécie, e igualmente tóxica e venenosa, aparece também o Tôjo, cujo aspecto visual é muito semelhante e poderá enganar muita gente mas que, ao tacto, é bem diferente, pois tem o pé com milhares de espinhos rígidos que maltratam as mãos de quem lhes pega sem o devido cuidado.
Recordo-me que, em miúdo, quando cá vinha nas férias da Páscoa, a minha tia Ana me dizia para não levar as mãos à boca, sempre que eu mexia em giestas. Coisas que, à força de nos serem repetidas tantas vezes e com tanta firmeza, acabam por nos ficar na memória ad eternum!

Mas, como surgiu esta tradição na Benfeita e quem teima em mantê-la viva, agora, que está na moda negar todas as tradições do passado?

Durante os meus tempos de criança ouvi várias versões sobre o significado desta tradição, sem nunca me ter debruçado verdadeiramente sobre o assunto; mas, à medida que os anos foram passando fui ficando mais exigente e hoje, já não me contento com o simples: «É para não entrar a fome!».

Uns diziam que era para espantar o mau-olhado e haver fartura no lar. Outros diziam que era para impedir que o burro ou o diabo à solta, disfarçado de asno, desse coices nas portas. Havia, também, quem dissesse que era contra o carrapato, pequeno parasita que causava grandes prejuízos nos rebanhos. E outros, mais simplesmente, diziam: «É contra as bruxas!». Porém, nenhum deles parecia muito convencido da justificação que dava!

A celebração das Maias é uma tradição de origem Celta ligada aos cultos da fertilidade da terra e da aproximação do Verão que, para os Celtas, se iniciava no quinto mês, em Maio. Esta tradição assumia diferentes expressões consoante a região onde era celebrada e foi assimilada pela religião Católica à semelhança de tantas outras tradições pagãs, tendo-se hoje perdido o seu real significado que, basicamente, tinha a finalidade de invocar a proteção da Natureza e estava ligada aos rituais agrícolas.

Giestal da serraMas, segundo a lenda, num evento bíblico que ficou conhecido como “O massacre dos inocentes”, quando o impiedoso Herodes “O Grande”, rei da Judeia, ordenou a execução de todos os meninos com menos de 2 anos, na vila de Belém, por ter tomado conhecimento do nascimento de Jesus que, conforme fora anunciado pelos “Três Reis Magos”, seria o futuro “Rei dos Judeus”, um dos seus ajudantes, para evitar que muitas crianças fossem assassinadas, sugeriu que na porta da casa onde Jesus vivesse se colocasse um ramo de giesta, a fim de, no dia seguinte, os soldados de Herodes o executassem. Desta forma saberiam qual a casa onde Jesus se encontrava. Contudo, no dia seguinte, quando os soldados procuraram a casa assinalada ficaram espantados, porque todas as casas estavam ornamentadas com giestas nas portas e não puderam dar com Ele, o que permitiu a Sua fuga para o Egipto.

De qualquer forma, a força desta tradição ainda hoje se mantém entre nós e, todos os anos, no último dia de Abril, muitas pessoas continuam a fazer questão de arranjarem o seu raminho de giestas amarelas para colocarem, à noite, nas portas ou nas janelas das suas casas e assim cumprirem a tradição (pedindo sorte e fartura para todo o ano), não só na nossa terra como noutras regiões do Centro e Norte de Portugal.

Algumas pessoas, em sinal de simpatia, colocam nas portas ou janelas de vizinhos ausentes, os alegres raminhos com flores amarelas, não deixando que a sua identidade seja revelada, sendo por isso, ainda mais generoso o seu gesto.

Colabore!
VIVALDO QUARESMA
07/05/2021

Ver também:
As Festas da Benfeita
Histórias da Nossa Terra