HISTÓRIAS  DA  NOSSA  TERRA

HOMENS E LOBOS
da Beira Serra, d'outrora

por: Sérgio Pereira dos Anjos

Sérgio Anjos, 2018— Diz-se que quando o Diabo apareceu ao Perna de Pau, ali no Bujo, vinha montado numa cabra de enormes asas que deitava chispas e fumos de enxofre pelas narinas — contava o Augusto, enquanto, com os seus tamancos brochados, ia pisando as castanhas que a Maria, sua irmã mais velha, ia trazendo, às cestas, do caniço, onde secaram sobre o calor da fogueira.

Joaquim, o irmão mais novo, escolhia no meio das castanhas piladas aquelas mais moles e doces, comendo algumas e escondendo outras.

— Também dizem — continuou o pai, António dos Anjos, entretanto a joeirar as castanhas — que à vista da cruz do Bujo o demónio se desfez em fumaceira.

— Bem, mas agora vamo-nos é deitar — aconselhou a mãe Delfina, varrendo a poeira aveludada — porque já é tarde e amanhã é dia da matança do porco.

Como em todas as casas das Beiras, aquele dia foi de festa. Logo pela manhã o bicharoco soltou os últimos grunhidos e, depois de limpo, lá o penduraram no chambaril e o abriram. As tripas foram recolhidas numa grande gamela preta e algumas mulheres, depois de lhes tirarem o unto, foram lavá-las nas gélidas águas da Ribeira das Fontes.

À tarde, já o António dos Anjos desmanchara o porco, dando aos presuntos aquele formato característico, e agora que alguns tinham ido deitar a ceia ao gado, outros davam uma ajuda à mãe na grande cozinha de lenha.

A velha mesa rectangular de castanho, habitualmente encostada às negras pedras da parede, havia sido puxada para o centro. Sentados, os familiares e vizinhos convidados, conversavam em voz alta, esperando pela sopa quente.

A toalha, branca e rendada à mão, somente era usada neste dia da ceia dos ossos, no dia da pascoela, quando o Prior vinha colher o folar, e no dia da festa da padroeira da aldeia.

Durante a ceia ouviu-se no quelho o rufar de uma ferrada ou caldeiro.

— Lá vai o Manuel Nunes a tocar o latão — comentou o compadre Manuel Pedro, enchendo o copo de vinho tinto. Os rapazitos bem que o achincalham!

— Por isso ele diz: «Só tenho medo dos da calça rachada!» — acrescentou a comadre Maria Emília, com uma risada no olhar, certamente pensando na abertura que, naquele tempo, os rapazelhos usavam nos fundilhos das calças, para não terem que as despir quando tinham que aliviar o intestino.

Entretanto, libertos das febras, os ossos do porco foram lançados ao quelho pelo janelo.

Depois da refeição, a conversa continuou animada, agora no quente da cozinha de cabouco, em volta do braseiro, que o frio de Dezembro greta a pele das mãos.

— Então o Zé Marques — continuou António dos Anjos, depois de um golo da garrafa que agora passara ao Augusto — vendo que a cachopa se embeiçara por aquele tipo dos Pardieiros, decidiu eliminar o sujeito.

— Foi então por isso — cortou o Augusto, impetuoso — que ele o atraiu à Mata da Margaraça, o esfaqueou e depois o enterrou nos chães da Abelheira junto da ribeira?

— Exactamente — condescendeu o pai — só que, uns dias mais tarde, por ocasião da Romaria da Senhora das Necessidades, o pai desse rapaz, desesperado pelo desaparecimento do filho levantou as mãos ao Céu e suplicou em voz alta: «Já que a justiça da Terra não me pode valer que me valha a Providência Divina».

— E olha que em tão boa hora ele fez a prece — exclamou a comadre Maria Emília, em ar pastoral — que rebentou logo uma trovoada tão violenta que deixou o corpo a descoberto.

— E logo o Zé Marques foi descoberto e apanhado — concluiu o António dos Anjos — e lá foi deportado para o Ultra...

Interrompeu-se, subitamente, e ficou à escuta. Depois, levantou-se num salto e abriu o janelo que dava para o quelho, assomando ligeiramente a cabeça.

Lá estavam eles! Por baixo do seu nariz, três grandes lobos disputavam entre si os restos dos ossos.

Haviam descido ali dos matagais do Ribeiro, passaram pela Eira e ali estavam eles, onde o odor da carne os atraiu. Silencioso, António dos Anjos fechou o janelo não fossem as mulheres e as crianças assustar-se.

Perante o olhar inquieto do Augusto, segredou-lhe o que se passava. Logo este se dirigiu à negra panela de ferro pendurada no caldeirão onde sobre o chamiço a arder a mãe aquecia água para lavar a loiça.

Compreendendo a intenção do filho, logo o pai se aprestou a ajudar a levar a panela para o janelo onde, sem cerimónias, despejaram a água a ferver por cima dos lobos que, uivando esganiçadamente, fugiram a quatro patas para as giestas da boiça.

Pouco depois, os familiares iniciaram as despedidas, alegando alguns terem que se levantar cedo para levarem o rebanho a pastar até à Deguimbra e ao Terreiro das Arintas.

— Então muito obrigados — atirou o compadre Manuel Pedro — foi um belo serão. Oxalá Deus permita que no próximo ano cá andemos todos.

— Bem-haja, ó compadre — retribuiu o António dos Anjos, enquanto acendia o lampião — mas, já agora saímos todos juntos, que eu ainda vou ali ao Caleirão ver o moinho, não vão as enchentes da ribeira entupir a cale e amanhã não tenho farinha moída. Além disso ainda vou ao curral apartar uns cabritos para o cortelho, porque eles andam a roer o barbilho e todo o leite é pouco para os queijos.

Saíram juntos.
O luar espetou as suas sombras contra as paredes.
As suas e as dos cavaleiros que, instantaneamente, os cercaram.

Tinham atravessado a Margaraça e descido a serra à luz da lua. Era sempre este o seu trajecto. De Avô subiam à Moura, donde passavam para o Sardal e continuavam pela Benfeita.

Haviam entrado no quelho silenciosos, a faca numa mão e a outra junto da pistola. No sorriso alarve, desenhado nas barbas compridas, adivinhava-se o cheiro nauseabundo dos sanguinários salteadores das Beiras. Era a seita de João Brandão, o qual, adiantando-se, quebrou o silêncio com voz ameaçadora:

— Saibam que vimos esfomeados! Eu, os meus homens e os cavalos. Pelo cheiro e pelos ossos que ali vimos, sabemos que mataram hoje o porco. Por isso queremos febras na brasa com fartura — concluiu João Brandão de faca apontada à garganta de António dos Anjos.

Procurando não despertar os instintos assassinos, a família lá foi satisfazendo as exigências do Terror das Beiras que, não satisfeito com as boas febras de porco, ainda exigiu as galinhas que dormiam no poleiro.

A mesa tiveram que a pôr na adega, para eles estarem mais próximos dos pipos. E, aos cavalos, abriram-lhes as arcas do milho, donde comeram uns bons alqueires, que tanta falta fizeram para a broa e para engordar o porco e as galinhas.

Pela conversa dos bandoleiros, António dos Anjos apercebeu-se que eles vinham da Moura em perseguição do ferreiro de Candosa, o qual tinham ali ferido a tiro quando fugia de casa da amante. Compreendeu, também, que eles já sabiam que o ferreiro de Candosa estava na Benfeita em casa do barbeiro, onde lhe conseguiram extrair a bala.

Pela mente de António dos Anjos ainda passou a ideia de mandar o Augusto lá abaixo avisar o ferreiro para fugir. Porém, o rapaz tinha medo de passar no Bujo, àquela hora. Também de nada adiantava, porquanto o Augusto iria a pé, ao passo que os bandoleiros deslocavam-se em bons cavalos. Para chegarem primeiro que o Augusto à Benfeita, não necessitariam de sair do Sardal muito apressados.

No domingo seguinte, António dos Anjos pôs samarra e gravata e, trocando o barrete pelo chapéu, foi até à Benfeita.

Depois da missa, no adro da igreja, ficou indignado ao saber que os bandoleiros, depois de terem matado o Ferreiro de Candosa, o amarraram num cavalo e levaram até Côja, apregoando à passagem: «Quem quer carne de marrã fresca?».

Quando, pelos finais do séc. XIX, já depois do julgamento e deportação de João Brandão, António dos Anjos foi à romaria da Senhora das Preces e teve oportunidade de ali comprar um folheto, onde, entre outras quadras sobre a vida do bandoleiro, havia esta:

O célebre terror das Beiras
Lá vai desta degredado
Pelos crimes que fez
Com seu instinto malvado.

Verso a verso, António dos Anjos sorria, ao mesmo tempo que pensava: «Nesta questão de lobos, cá por mim prefiro os de quatro patas».

 

SÉRGIO PEREIRA DOS ANJOS.
In: Comarca d’Arganil
21/09/1982

Ver também:
Histórias da Nossa Terra
Quem foi João Brandão? (a seguir)