JOSÉ  SIMÕES  DIAS

(Continuação)

* * *

Somos chegado agora ao ponto mais escabroso e difícil dos nossos juízos, pois não obstante tudo isso, que aí fica dito, o talento poético de Simões Dias é o seu melhor título de glória, que temos por imarcescível.

Seremos sempre, como até aqui, em pleno domínio da arte, avesso a escolas e a propagandistas sistemáticos; o que havemos manifestado, por vezes, e ainda ultimamente no prólogo de um livro nosso, (Horas Perdidas - Poesias). E repetiremos:

Num D.Juan, a espumar de embriaguez no recanto de uma viela lamacenta, onde se estorce na agonia da morte, sobre a fermentação pútrida do tremedal, um cão postulento envenenado pela estricnina municipal - não encontramos poesia, por mais que a procuremos e rebusquemos.

A epopeia e o lirismo esquadrinhados na labutação da oficina, donde saem lufadas de fumo escaldadiço; nos hospitais de infecciosidade viciosa ou na trapeira das gentes de ínfima e infame condição, não os compreendemos, nem os aceitamos.

Juvenal, Rabelais, Boileau, Gil Vicente, Bocage, Cruz e Silva e outros, que se possam considerar precursores inocentes do desregramento, que se transformou em seita, nos próprios descomedimentos de frase, não incitavam à perversão, nem condimentavam realismos torpes; ao contrário, riam às escâncaras, ou carregavam o sobrolho, ao desnudar com malícia descritiva certos costumes do seu tempo, simplesmente para os verberar e corrigir.

Descrevê-los seriamente, como estilo e primor de dicção, com o sabor próprio do acepipe provocador, que se transforma em corrosivo dos espíritos fracos ou ignaros, de que se compõe a maioria das multidões, nunca o tentaram sequer, deixando aos alcoices e à bibliografia oculta a propagànda dos vícios e cruezas sociais.

Os românticos... esses ao menos, cuja escola Herculano denominou ideal, verdadeira e nacional, enflorando as suas liras de madresilva, louro, mirto e rosas, embora a ficção os tornasse inverosímeis por vezes, cantavam as flores, o sol e os campos, as acções nobres e o amor, as mulheres e a pátria, isto é, tudo que a vida tem de belo, elevado, fortificante.

A obra de arte genial deve ser, e é sempre, o artista com a sua índole, as suas aptidões, gostos e temperamento.

Poderemos alistar Simões Dias nas fileiras do romantismo, por índole ou contágio da época, em que primitivamente floresceu?

Embora alguns o tenham dito, nós discordaremos parcialmente, pois que na compleição dos que nascem artistas, podemos admitir modificações de temperamento e época, mas pouquíssima ou nenhuma influência de escolas, salvo em composições artificiosas.

O imitador e o copista não constituem individualidades geniais.

Canto como à tardinha canta a brisa
Ao perpassar nas cordas da harpa eólia,
Tal como a vaga sobre a areia lisa,
Ou como a nota, que a gemer desliza
Por entre as verdes franças da magnólia;
Ondas e brisas, ventos, que passais,
Levai convosco pelo ar meus ais!

Moças, que estais banhando de afrontadas
No Douro e no Genil o rosto lindo,
E vós, ó frestas rosas perfumadas,
Cujas corolas de oiro polvilhadas,
Nas veigas do Mondego ides abrindo,
Vinde ouvir as canções do trovador,
Vinde comigo suspirar de amor!

Diz-nos o poeta; e nisso está com o nosso modo de ver e com a opinião que dele formamos.

O ar, que desfere sons vários nas franças do arvoredo, nas cordas de uma harpa ou nas de uma lira; a corrente, que murmura; a onda, que desliza sobre a areia; a florita, que rebenta entre sarçais; a rosa, que espaneja galas em jardins cuidados; o rosmaninho e a macela, que florescem à borda dos caminhos agrestes, as aves, que pipilam ou gorgeiam - porque fazem tudo isso?

Porque obedecem à ordem infalível e invariável da grande mãe, que os criou... a natureza.

Que escolas, que sistemas e que erudição possuia o rapazito da Benfeita, quando, em verdes e incultos anos, cantava como as aves, engendrando versos desataviados?

Cantava... cantava, porque os seus cantares eram um dom espontâneo da natureza, que o infantara.

Perderam-se eles nas anfractuosidades da alpestre serrania da Benfeita?

Não perderam; deram a origem e a revestidura essencial, às canções e trovas de maior notoriedade popular, impressas mais tarde; as quais, na própria feição erudita, nada despiram do seu sabor primitivo.

Participando um tanto do lirismo de Espronceda, da melancolia de Lamartine e do cançonismo de Béranger, Simões Dias tem um cunho de originalidade sua própria.

Não daria, na idade média, um cantador de gestas, mas seria um sublimado trovador, zagal erradio nos alcantis das serranias e nas veigas floridas; bandolinista amoroso nos ajuntamentos das donzelas campesinas, em serões do lar, nos terreiros festivos ou no adro do presbitério; cantor apaixonado das damas castelãs, enamoradas do luar resplandecente, polvilhado, alta noite, como em diadema sobre a gorra emplumada do trovador, que desfiriria, à distância, sentado nas escarpas, enquadradas de arbustos odoríferos, o seu plectro inspirado.

Em pleno eruditismo do século XIX, descontadas as diferenças evolutivas, o nosso conterrâneo é o representante legítimo da trova popular dos tempos medievais, poeta provençal da época moderna.

Senhora dos meus cuidados,
Dos meus cuidados senhora,
Porque não dás que passados
Sejam meus males agora
De há tanto principiados?

Senhora, que te recostas,
No peitoril da janela,
Abaixa os olhos à rua,
E vê quem passa por ela.

Não é o sol, que passeia,
Nem a réstia do luar,
São dois olhos, que navegam
No rumo do teu olhar.

Manda apagar as estrelas,
Manda recolher a lua;
Só quero por testemunhas
Os lagedos desta rua.

Mal haja o amor, que dá penas,
Ardente amor, que me abrasas!
De que me servem as penas,
Se me falecem as asas?

Se em vez de penas, de amor
Fossem penas de voar,
Suspiros, que o vento leva,
Não se perderam no ar.

Aí têm o trovador, na última das suposições, que acima deixámos marcadas.

Raia o luar, a castelã assoma à gelosia escusa e o poeta enamorado desfaz-se em versos de menestrel.

***

Simões Dias, ele próprio, cremos que por se ver, algumas vezes, desacertadamente aquilatado em críticas breves delineadas sobre o joelho, viu-se obrigado, na advertência da 4ª edição das Peninsulares, modestamente e como lhe cumpria, a acudir pelo seu crédito.

Ouçamo-lo:

«0 breve prólogo da primeira edição deste volume abria pela seguinte quadra de A.F. de Castilho:

«Ao menos a mocidade
Toda de amor se enfeitice
E deixe em terno legado
Saudades para a velhice.»

«Servia-lhe de fecho estoutra de Bocage:

«Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores;
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade e não louvores.»

«Hoje que sobre a primeira edição passaram mais de trinta anos, ainda essas quadras reproduzem à justa o pensamento que presidiu à publicação primitiva em 1863, à reproducção em 1867 e 1876 e à reimpressão actual destes versos dos dezoito anos, ingénuos e despretenciosos como a idade que os produziu.

«Este livro representa com efeito uma fase da mocidade do autor; o seu valor, portanto, é todo pessoal. Mas sendo fora de dúvida que na direcção dos esforços individuais se anunciam os factos de interesse geral que marcam as grandes épocas da Arte, facilmente se observará no exame das peças deste volume a tal ou qual tendência do espírito poético português para despedaçar as peias do convencionalismo romântico, e retemperar-se nas águas lustrais da inspiração popular, a única verdadeiramente humana e sincera, como a compreenderam entre nós Luís de Camões e fr. Agostinho da Cruz.

«Esta evolução deu-se na década de 1860 a 1870, e foi precisamente nesses dez anos que o autor deste livro compôs a colecção das suas obras poéticas, na maior parte versos amorosos e elegíacos, de carácter subjectivo, como aliás os faziam os menestréis do tempo e hão-de fazê-los sempre os poetas meridionais, enquanto durar o bom sol da Península que tão generosamente os ilumina e aquece.»

E é assim. Entretanto nesses dizeres parece-nos descobrir uma ponta de receio de que alguém pudesse increpá-lo pela feição simples e musical dos seus versos, que é aí que predomina a característica do seu mérito.

Esse receio, se existe, não tem fundamento, embora os buzineiros das modernas seitas, que por aí cabriolam dizeres abstrusos, falhos de gramática, de metro, de harmonia e senso comum, não pensem em que a arte, salvas pequenas conveniências evolutivas de anos e ocasião, é eternamente moça e sempre a mesma, quando lhe assistem o saber, a inspiração e o génio.

Já o autor do Hyssope[1], há tanto, dizia, no canto V, que, se os varões antigos ressuscitassem:

«Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!).
Súbito certamente pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala, ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que era em Portugal que os portugueses
Eram também os que costumes, língua
Por tão estranhos modos afrontavam,
Segunda vez de pejo morreriam.»

Bem fez por tudo isso, agora, Simões Dias em levar a efeito uma edição revista e arrumada por ele, definitiva, para que fanatismos de admiradores ou futuros empresários de minúcias abandonadas não venham dar nova disposição à sua obra, nem acrescentar-lhe, como se tem feito, em edições gananciosas, títulos, dizeres e composições completamente condenados pelo autor.

Sabemos bem que fora deste livro, ao presente, não resta coisa nenhuma desperdiçada.

É celeiro, de que não há grãos perdidos, sem que o cultor os conheça.

De quatro volumes, que constituíam as Peninsulares, com diversos títulos, resultou este de económica grossura, onde se não alteraram elementos primitivos, em que seria imprudente tocar, mas onde se praticaram alterações, aqui e acolá, como era de esperar, e se estabeleceu por fim uma ordem completa, reformando antigas denominações, consoante a índole dos escritos.

Essa nova disposição abrange quatro partes, que se chamam - Elegias, Canções, Odes e Poemas, composições mais ou menos refundidas.

Na Hóstia de Oiro, por exemplo, que denuncia um certo predicado irónico, as passagens vestem agora trajos do último figurino, onde entram frisantes alegorias políticas.

Nas Odes figuram páginas de interesse objectivo, onde se compreendem voos de alma de um verdadeiro crente e sentimentos de melancolia Lamartiniana, que ascendem até à poesia filosófica, a cuja classe pertence o soneto A Jesus, que serve de portada a essa secção interessantíssima, e que não podemos deixar de trasladar para aqui:

Chamaram-te a esperança do futuro,
E Tu, meu bom Jesus imaculado,
Sentias-te feliz, embriagado,
Nessa doce ilusão dum sonho puro.

Atravessaste a vida, humilde, obscuro,
A fantasiar o advento dum reinado,
Que nunca ninguém viu realizado,
Traço ideal de luz num fundo escuro.

Foste no mundo a cândida inocência,
O símbolo do amor e da piedade,
Da perfeição, enfim, a última essência.

Mas para que serviu tanta bondade
E tanto padecer, se a Consciência,
Qual dantes era, é cheia de impiedade?

Como prometemos, a clara rudeza do nosso carácter tem-nos feito desviar, por vezes, do cerrado panegírico impróprio de nós e do nosso propósito. E assim notaremos que, sendo fiel devoto da pureza de forma, embora material e não essencial, quiséramos encontrar na metrificação de toda a obra mais propositado intercalamento do verso agudo com o grave e menos frequência, na rima, da toante pela consoante.

Este senão, todo superficial, não merece valioso reparo, se atendermos ao carácter popular, que não cura de formas, e ao jorro do sentimento inato, que não admite peias.

Se considerarmos as elegias e as sátiras em separado, poderemos até encontrar nelas o tom melancólico e ao mesmo tempo zombeteiro de Camões; quanto às primeiras, em composições como as que adiante citamos em extracto; e, quanto às segundas, nos poemetos Milagre de Lourdes, A Espada do Guerreiro e até em muitas passagens da Hóstia de Oiro.

Nas elegias, como expressões de íntima mágoa, vê-se claramente realizado o conselho dado por Goethe ao que lhe pedia um assunto para versos.

- «Faz um poema da tua dor» - respondia o poeta do Fausto.

E Simões Dias foi, amiudadamente, o pelicano da sua alma, de cujo sangue se formaram as suas melhores elegias.

Nas Elegias e nas Canções é que ressalta muito nítida a feição peculiar do poeta, a que serviu de instrumento a inspiração nativa, entrelaçada com a verdade e o amor.

Embora, pela cultura do verso popular, queiram colocar Simões Dias a par de autores selectos e venerados, a quem se atribuem predicados iguais, nós continuaremos sempre a considerá-lo, pela documentação plena dos seus versos, como individualidade distinta e inconfundível.

E, note-se, que nós encontramos nos seus versos pelo menos duas feições salientes, que, obedecendo à mesma espontaneidade de colorido, são, pelo tema e pela dicção, um delicioso e grande contraste, que só os artistas de raça, isto é, os que a arte bafejou do berço, chegam a realizar superiormente.

É isto que repele uma aliança estranha; é nisto que está, a nosso ver, a inconfundibilidade do carácter poético do burilador das Peninsulares.

Os tons vários, que o verso popular, a redondilha menor, lhe faz extrair do plectro, elevando-se ou baixando-se à gama, que muito bem lhe apraz, são extremados.

Neles descobrimos a prova de uma opinião, que de há muito professamos; e vem a ser que, sejam quais forem as afinidades e parentescos das outras línguas, em nenhuma realça e brilha o septissílabo como na portuguesa, onde esse verso popular e lendário geme, troveja, suspira, zomba, grita, sorri e canta, sejam quais forem também os contrastes do assunto.

Vejamos, ligeiramente, porque nos vai faltando o espaço, diversos diapasões em cantares do mesmo verso.

Sorrimos com a ligeira toada das trovas do Teu lenço:

O lenço, que tu me deste,
Trago-o sempre no meu seio,
Com medo que desconfiem
Donde este lenço me veio.

Alvo, cor da açucena,
Tem um ramo em cada canto;
Os ramos dizem saudade,
Por isso lhe quero tanto.

A cismar neste bordado
Não sei até no que penso;
Os olhos trago-os já gastos
De tanto olhar para o lenço.

O mesmo tom nos enfeitiça na Tua roca:

Meu amor, quando acabares
De espiar a tua estriga
Se ouvires por alta noite
Soluçar uma cantiga,

Sou eu que estou a lembrar-me
Da tua divina boca,
E penso que em mim são dados
Os beijos, que dás na roca.

e na Andalusa:

Ei-la que passa! A mantilha
Desde a cabeça à cintura
Dá-lhe o aspecto de uma santa
Em primorosa moldura.

E a rosa rubra suspensa
Do penteado singelo,
Como estrela incendiada,
Presa ali por um cabelo?!

Ela vai só, mas parece
Que um regimento a acompanha!
Passa a flor da Andalusia!
Passa a formosa de Espanha!

Gememos doridamente nas estrofes do Moço e Velho, escritas com sangue do coração:

Nas tristes faces cavadas
As rugas lavraram fundo;
Olha que tenho sofrido
Como ninguém neste mundo!

Eu ando como um sonâmbulo
Pelas estradas a medo,
Sempre a pensar no motivo
Porque envelheci tão cedo.

na Volta do Peregrino:

Ai! Quem me dera agora
A cândida inocência
Dos tempos, que sorriram
À minha alegre infância!

e finalmente na Melancolia:

Luz do amor, astro jucundo,
Gasto a vida na ansiedade,
Perguntando a Deus e ao mundo
Se és um sonho ou realidade.

Sorrimos ainda no Teu manjerico, no Teu canário, na Tua liga e noutras composições de igual feição, tanto de encantar:

Quando te vejo entretida
Tosquiando o manjerico,
Horas e horas me fico,
Alma em êxtase perdida.

De que te serve um canário
Sempre a gemer na prisão?
Prisioneiro voluntário...
Só meu pobre coração.

Encanta-nos a musa travessa nos rendilhados versos A uma vizinha:

Mal sabes, minha vizinha,
Vizinha dos meus pecados,
Que lances amargurados
Por tua causa penei,
Quando te vi à varanda,
Que fica daquela banda
Donde nascia o luar,
À meia-noite, falar
Com um vulto, que ali anda
Constantemente a rondar!

Sentem-se os olhos húmidos de lágrimas no Adeus e nas Brisas do Norte:

Brisas do norte, felizes
Mais do que eu sois vós agora;
Vós cantais ledas no espaço,
Enquanto minha alma chora.

O poeta folga ainda, e tece madrigais de uma frescura especial e de outro dizer tão diverso no Drama Novo, poemeto, que só por si podia dar nomeada a qualquer poeta novíssimo dos poucos, já se entende, que escrevem em português e para portugueses; e mostra ainda outra faculdade criadora, ao tracejar da redondilha indicada, no Ramo de Flores, todo repassado de saudades olorosas:

«Aceito-o, senhora minha,
Como aceita o moribundo
A santa cruz sobre o peito,
Ao despedir-se do mundo.

«Aceito-o, como se deve
De aceitar na cova escura
Os goivos, que mão piedosa
Nos vai pôr na sepultura.

Na Silva de Cantigas, finalmente, é onde o verso popular de Simões Dias fulgura tão rico de naturalidade, conceito e graça, que não há encontrar-lhe rival.

Apreciemos a amostra:

Meu amor, se andas perdido,
Sem saber quem te perdeu,
Nos meus olhos tens a escada
Por onde se sobe ao céu.

Se eu soubesse que te rias
Quando eu suspiro e dou ais,
Tirava os olhos da cara,
Para nunca te ver mais.

Quando foi à despedida,
Quando te apertava a mão,
Dobrou o sino a finados:
Morria o meu coração.

Teus olhos são mais escuros
Do que a noite mais fechada,
E, apesar de tanto escuro,
Sem eles não vejo nada.

Desentranhem-nos da alma popular versos mais finos e conceituosos do que esses, que nós quebraremos a pena, com que traçámos estas linhas, vanglória à parte.

E por aqui nos cerramos, que mais espaço nos não sobra.

Folheiem-se, com alma de sentir, essas líricas suavíssimas, ora impregnadas de uma melancolia e tristeza terníssimas, ora engrinaldadas de bucolismos e arcarias, entretecidas da madresilva dos ribeiros e das flores alvíssimas dos estevais beirões; saboreie-se a letra da Senhora de Pedra, da Hera e o Olmeiro, da Barca da Vida, do Pensamento, da Xácara de D. João, da Branca Flor do Meio-Dia, do Sábado; leia-se a Musa Dolorosa, com que abre este livro, e os soleníssimos versos da ode Aos Párias; pese-se, oiro e fio, toda a valia das rimas cristianíssimas, difundidas largamente em algumas odes e poemas, e ver-se-ão, com perfeita nitidez, as duas feições distintas do poeta inconfundível: trovador, ao bandolim, no primeiro plano; elegíaco e pensador, no segundo.

***

Se nos arreceássemos de errar na exposição dos nossos juízos, podíamos recorrer a estranho auxílio, por exemplo, à série de opiniões críticas, que o editor de um dos livros de Simões Dias, As Mães, 1877, deu em apêndice, firmadas por avultado número de escritores acerca das Peninsulares; e diríamos que, ainda há pouco, na quarta divulgação de uma parte delas, o então chamado Mundo Interior, a imprensa letrada se desatou em louvores.

- São versos, que se lêem sempre com prazer, porque pertencem à classe dos que não envelhecem - dizia Barros Gomes.

- Tu serás um dos poucos, que ficam - escrevia João Penha.

- As suas poesias têm o condão de reviver em todas as primaveras - afirmava Ramalho Ortigão.

- Simões Dias é um dos maiores poetas de toda a literatura portuguesa. Dante assinaria os seus tercetos - exclamava Trindade Coelho.

- Graças a Deus que ainda há nesta terra alma, talento e português! - acrescentava Bulhão Pato.

Mas para que citar apreciações?

De facto, essa poesia terna, amorosa e tão acentuadamente nacional e humana não passará de moda; não envelhecerá nunca, porque tem o selo da beleza eterna. Entretanto, acima de todos os juízos, nossos e alheios, está o juízo do povo, que, em rapsódias de larga vulgarização, espalha pelos cegos ambulantes e pela gente dos campos os versos do menestrel, de quem não sabe o nome.

O melhor crítico, pois, o mais entendido no assunto é o povo, que confunde, com os seus, os cantares eruditos de Simões Dias, os espalha de terra em terra e os vai introduzindo nos seus cancioneiros, como se foram obra sua!

Sucede tudo isso nas duas Beiras e noutras provincias; no Algarve, por exemplo, o erudito e falecido Estácio da Veiga encontrou quadras das Peninsulares, as do Teu Lenço, por exemplo, como se fossem de criação vulgar.

Ainda recentemente o Cancioneiro de Músicas Populares, inseriu, a pag. 276 do 3º volume e sob nº 318 das canções, o Moribundo, uma das estreias do nosso poeta, seguida desta nota:

«Esta canção foi recolhida em Unhais da Serra, onde, em 1870, e na Benfeita (pátria do autor, como sabemos) era cantada pelos cegos, de quem a aprendeu o povo daquele e de outros lugares.»

Esta assimilação é a iniludível consagração do alto senso estético, que repassa toda a obra de Simões Dias; o que lhe dá um valor inestimável.

Quando um poeta, como ele, chega a traduzir em fórmulas espontâneas, quase inconscientes, profundamente populares, o espírito tradicional da sua raça, corporizando em versos a alma anónima da multidão, esse poeta, que, com tanta justeza, sabe interpretar o sentimento colectivo, conquistou um lugar indisputável na história literária do seu país, a que pertence mais que a si próprio.

As escolas, que se atropelam e passam, nada têm nem terão que ver com quem está no seu posto consagrado, assistindo ao desfilar dos que chegam.

Lisboa, Fevereiro de 1899.

SANCHES DE FRIAS[2].


Notas: 

  • [1] - Hyssope, poema heróico-cómico, foi escrito por António Diniz da Cruz e Silva, poeta português, nascido em Lisboa, em 1731. Era filho de um carpinteiro lisboeta que emigrou para o Brasil, pouco depois do seu nascimento, deixando-o aos cuidados de sua mãe que, com a profissão de costureira, conseguiu sustentar a família e garantir os estudos do poeta em Coimbra, onde estudou Latim e Filosofia e se formou em Direito. Em 1756 foi um dos fundadores da Arcádia Lusitana. Em 1760, foi Juiz de Fora em Castelo de Vide e em 1764 foi para Elvas onde escreveu, em 1772, o poema satírico em oito cantos, Hyssope. Regressa a Lisboa em 1774 e, em 1776, foi nomeado desembargador da Corte, no Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 1799.
     

  • [2] - David Correia Sanches de Frias (Visconde de Sanches de Frias), nasceu em Pombeiro da Beira, concelho de Arganil, em 2 de Outubro de 1845 e morreu na mesma localidade em 18 de Março de 1922. Era filho de António Correia de Frias e de Ana do Sacramento Machado Sanches. Dificuldades financeiras da família, te-lo-ão impedido de prosseguir os seus estudos e levado, ainda adolescente, a tentar vida no Brasil, onde, dedicando-se à vida comercial, acabaria por garantir a independência financeira da família. Foi um importante negociante, tendo estado associado às firmas Câmara, Frias & Cª, do Rio de Janeiro, e Frias & Nogueira, do Pará. Mas, foi no domínio das letras que mais se distinguiu, tendo cultivado a escrita com algum êxito, quer em colaborações jornalísticas no Correio da Noite, Progresso, Novidades, Capital e Globo (este de sua propriedade), quer em obras diversas: poesias, romances, contos, dramas, etc. Escreveu, além de ficção, literatura de viagens, e ensaio, tendo deixado uma excelente monografia sobre Pombeiro da Beira, em 1896, bem como o presente estudo sobre Simões Dias, de quem era amigo pessoal. Dirigiu, com o filólogo Cândido de Figueiredo uma revista literária. Foi homem de sólida formação moral. Marcello Caetano, que o conheceu, referiu-se-lhe nestes termos: "Na aldeia (Pombeiro) residia ao tempo o Visconde de Sanches de Frias a cuja casa muitas vezes fui. Era o mais visconde de todos os viscondes que jamais conheci na vida e a minha retentiva infantil fixou a sua figura erecta e pomposa, de bigode, pera e farta cabeleira, num halo de imponência cuja grandeza e intensidade estão muito para além do que caberia à sua hierarquia nobiliárquica!" (Citação de José Caldeira em "o Visconde de Sanches de Frias, Vida, Obra e Ascendência", na revista Arganília Nº3). Era fidalgo-cavaleiro da Casa Real, sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Associação de Jornalistas e Escritores Portugueses. Foi presidente do Grémio do Pará, onde casou, em 1872, com Maria Joana Carreira de Abreu Guerra, natural no Pará. O título foi-lhe concedido em duas vidas por decreto de D. Luís, em 1887.