|
A volta do peregrino
... Continuação
Ai! Quem me dera agora
A cândida ignorância
Dos tempos que sorriram
À minha alegre infância!
Então nem eu sabia
Que dores simboliza
Sobre essas frias lousas
Uma cruz por divisa!
Então um cemitério,
A recender a flores,
Era um breve canteiro
Falando-me de amores!
Agora não; se tento
Voltar aos dias belos,
Logo me assalta o bando
Dos negros pesadelos.
Levanto o pó da terra,
Amasso-o com meu pranto;
Quero da eterna inércia
Quebrar o o eterno encanto;
Dou-lhe o calor do seio,
Entorno-lhe mil ais;
Quem te animou? - Pergunto,
Silêncio e nada mais!
|
E assim, baixando os olhos
Me fico horas perdidas,
A perguntar à morte
Que fez de tantas vidas?
Mas para que envolver-me
No horror desse mistério,
Se tu me abres a porta,
Meu velho cemitério?
Se em ti me estende os braços
Aquela santa cruz
Que me abracei na infância,
E onde morreu Jesus?
Bendita seja a hora
Em que te torno a ver,
Ó terra abençoada,
Que és parte do meu ser!
Quando te piso e apalpo,
Que sonho e que ilusão!
Penso que vive ainda
Meu pobre coração!
José Simões Dias - "PENINSULARES" - 1870 |