POETAS  DA  NOSSA  TERRA

José Simões Dias

A volta do peregrino

... Continuação

Ai! Quem me dera agora
A cândida ignorância
Dos tempos que sorriram
À minha alegre infância!

Então nem eu sabia
Que dores simboliza
Sobre essas frias lousas
Uma cruz por divisa!

Então um cemitério,
A recender a flores,
Era um breve canteiro
Falando-me de amores!

Agora não; se tento
Voltar aos dias belos,
Logo me assalta o bando
Dos negros pesadelos.

Levanto o pó da terra,
Amasso-o com meu pranto;
Quero da eterna inércia
Quebrar o o eterno encanto;

Dou-lhe o calor do seio,
Entorno-lhe mil ais;
Quem te animou? - Pergunto,
Silêncio e nada mais!

E assim, baixando os olhos
Me fico horas perdidas,
A perguntar à morte
Que fez de tantas vidas?

Mas para que envolver-me
No horror desse mistério,
Se tu me abres a porta,
Meu velho cemitério?

Se em ti me estende os braços
Aquela santa cruz
Que me abracei na infância,
E onde morreu Jesus?

Bendita seja a hora
Em que te torno a ver,
Ó terra abençoada,
Que és parte do meu ser!

Quando te piso e apalpo,
Que sonho e que ilusão!
Penso que vive ainda
Meu pobre coração!

José Simões Dias - "PENINSULARES" - 1870

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