HISTÓRIAS  DA  NOSSA  TERRA

Obituários da Benfeita na Torre do TomboA VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS?

Nem sempre um consenso pode provar a veracidade dum facto!

por: Vivaldo Quaresma

Ao consultar os livros paroquiais de registo de óbitos da Benfeita, dos finais do século XIX, fiquei admirado com um comentário do Padre Alfredo Nunes de Oliveira onde, com a sua mão, ele registava o falecimento de Cristiano Pinto da Gama, da Deflores, em 09/03/1897, anotando que o falecido, de 42 anos de idade, filho José Maria da Gama e de Maria Gertrudes do Rosário, casado com Ana da Conceição, havia sido: "assassinado"!

Uma revelação destas é sempre surpreendente, não só porque inesperada, como principalmente porque o inusitado ocorre num local que sempre associámos a grande tranquilidade, paz e amizade entre as pessoas - a nossa Benfeita!

Não considerando, claro, as vezes em que a causa mortis era acidental, como quedas (caiu a um poço, caiu duma árvore ou escorregou num precipício); suicídio (apareceu morto, afogou-se na ribeira ou bebeu veneno); ou, ainda, acidentes por (água inquinada, leite estragado, atacado por um javali ou picado por abelhas), em que não existiam suspeitas de crime e não houve intervenção policial nem grande alarido, aquela era a primeira vez em que eu me deparava com uma situação de "crime de sangue", um assassinato a tiro, na Benfeita, num local conhecido por "a volta do Santo" que, para alguém, a partir desse dia, passou a ser "a curva do Diabo". Por isso, curioso, resolvi fazer uma pequena pesquisa, deitando mão aos escassos recursos informativos que disponho.

E, eis o que encontrei n'A Comarca de Arganil, de 1977, exactamente 80 anos após a data de publicação da notícia daquela infeliz ocorrência:

Pela
Freguesia da Benfeita

Recordando…

Vem de tempos muito antigos o aforismo, dizendo-se ainda, "voz do povo, voz de Deus". Vem das eras em que o "português" não se falava ainda, e as populações da Península Ibérica foram vencidas e dominadas pelas Legiões Romanas, que aqui viveram, implantaram um regime novo, político, militar, administrativo, agrícola até e "civilizando" o mundo ibérico-hispânico, lhe deram os seus usos e costumes, as suas instituições, religião, língua, etc..

Foi nesses velhos tempos que, na sua língua latina, estabeleceram e ensinaram a máxima aforismática "vox populi vox Dei", em que hoje muita gente acredita ainda, sem hesitação.

Ora, nos finais do século passado, ocorreu aqui, inesperada e espantosamente, um crime de morte, facto incrível, quase absurdo nas nossas aldeias, por contrário à índole pacata, pacífica mesmo, da nossa gente, que pode ralhar, fazer grande gritaria e berratas, barafustando com grande cópia de gestos, imprecações e juramentos mais ou menos maléficos e praguentos, mas não passam daí. Por isso, embora o apodo ou alcunha de ralhadores se tenha apegado apenas aos Pardieiros, bem poderia aplicar-se, sem ofensa ou melindre, a toda a freguesia...

Foi o caso que apareceu morto, com um tiro, num pinhal, no sitio "Volta do Santo", entre a Corga e a Teixogueira, um homem de nome Cristiano, de profissão alfaiate que regressava de trabalhar nas Luadas, de casa de um freguês, como era de uso na época, e ia a caminho de casa, junto a Dreia!

O "povo", aparecido o cadáver, enquanto um ou outro cogitaria talvez sobre a razão do assassinato e sobre o possível matador, logo acusou da nefanda e perversa acção um pacífico cidadão, chamado Augusto Nicolau, em casa de quem o morto estivera a trabalhar.

E todo o mundo, "a voz do povo, a voz de Deus" afinal, acumulando hipóteses e convicções, e "provas"... acusou convicto o Nicolau! E as autoridades de Arganil vieram prendê-lo, enclausurando-o na cadeia comarcã, que ocupava o rés-do-chão dos Paços Concelhios, em permanente exposição para quem passava, através das janelas abertas fortemente gradeadas, que davam para a praça.

Ouvidas muitas "testemunhas" no processo, maior era a convicção da culpabilidade do preso, que, perturbado e abstruso, nem se sabia defender, por maiores, insistentes ou persuasivos que fossem os interrogatórios das diversas autoridades, pois se limitava a tartamudear "Deus sabe muito bem que não fui eu", acrescentando, quando lhe perguntavam então quem teria sido: "Deus sabe muito bem quem foi".

E a Benfeita mais se convencia, dia a dia, que fora o Nicolau o matador, pois não era a voz do povo a voz de Deus?

Entrava a Quaresma...

Um dia, com geral espanto público, e inesperadamente, o Augusto Nicolau apareceu na Benfeita, restituído à liberdade, sem quaisquer explicações, regressando, livre e feliz, a sua casa e ao convívio da sua família. E quando lhe perguntavam alguma coisa sobre o que se passara, ele apenas sabia repetir o que sempre dissera em Arganil: "Não fora ele que matara o Cristiano... Deus bem sabia quem fora".

Alguns dias depois as autoridades vieram prender, no Pisão-de-Águas-das-Maias, o João dos Santos, proprietário, chamado João do Pisão, compadre do assassinado e que assistira ao funeral com exuberantes manifestações de pesar, quase de desespero, pela morte do seu querido amigo e compadre!

Correu então que o João do Pisão tinha sido denunciado pelo padre Alfredo, que o ouvira em "confissão", mas novamente "a voz do povo" não era a "voz de Deus" porque o sacerdote se limitara a ir a Arganil garantir a inocência do Augusto Nicolau e não pronunciara, nunca, o nome do João do Pisão! Este confessou, foi condenado, fugiu, andou anos a monte, cumpriu vários anos na Penitenciária de Lisboa, e veio acabar os seus dias no Pisão de-Água-das-Maias. Talvez um dia digamos como fugiu da Cadeia de Arganil, na madrugada da sua condenação, como viveu clandestinamente até em Castelo de Vide e em Aldegalega do Ribatejo (agora, Montijo), onde viveu com a mulher e esta afinal o denunciou às justiças, com medo do marido a matar.

CA 7590_3 - 10/03/1977