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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011 |
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Ninguém, por mais infeliz,
deixa de ter na vida, de longe em longe, uma réstia de alegria a iluminar-lhe a existência. O Dr.Emílio
Dantas, por ser um misantropo[1]
e um desiludido, também teve a sua época. O seu nome andou apregoado nos jornais e o seu talento chegou a ser reconhecido.
A sua figura não era rigorosamente olímpica; entretanto, impunha-se por
certa majestade de linhas que o tornavam respeitável e simpático. Alto e delgado, farta cabeleira romântica e
bigode negro e espesso, movia-se com elegância e gravidade quando, raramente, atravessava as ruas de
Lisboa, relanceando para as lojas de livros os seus grandes olhos peninsulares, negros como a noite, na frase
de Byron[2].
Os conhecidos que o viam passar, aprumado, na sua invariável sobrecasaca preta assertoada até ao pescoço,
acotovelavam-se:
- O nosso homem anda a chocar[3]
epopeia!
Exactamente o que diziam noutro tempo os seus condiscípulos, quando ele
entrava, livros debaixo do braço, nas aulas de medicina, taciturno e superior. Já nesse tempo Emílio Dantas
passava por talentoso e aplicado, espírito sonhador e curioso. Por mais de uma vez a velha servente, que lhe
aturava os caprichos, o foi encontrar, altas horas da noite, com a cabeça pendida sobre os livros, como se uma
síncope o tivesse fulminado. Mas, prodígio de vontade, momentos depois esfregava as fontes e os olhos com as mãos
nervosas, aprumava-se na cadeira e reentrava na luta com mais ardor.
Agora o Dr.Emílio era ainda o mesmo homem, com alguns desgostos a mais e
algumas ilusões a menos. Tinha acreditado muito na ciência a que se dedicara, mas, notando com espanto que a sua ciência
apenas servia para matar doentes, acabou por abandonar a
clínica e descrer da ciência de Esculápio[4].
Deliberou, então, consagrar todas as suas horas aos doces prazeres da glória literária, como um refúgio do seu
espírito atribulado.
Nesse sentido dispôs a sua vida, indo instalar-se num recanto da cidade com
os seus livros, longe do bulício; e para desenjoar o tédio do isolamento voluntário chamou a si uma rapariguita que,
por acaso, encontrou na rua, mandou-a educar e polir e, com este esboço de amante e com a velha servente dos
tempos escolares organizou, bem ou mal, a sua família.
Agora é que ele podia chocar epopeias à vontade.
Lançado resolutamente na estrada, em demanda da glória que lhe sorria, Emílio
começou para ensaio a tracejar as linhas gerais dum romance histórico da época pombalina, em que figuravam
os Távoras no primeiro plano. Ao cabo de alguns meses de labuta e pesquisas nos arquivos, o romance estava concluído.
Chamou então ao seu escritório a formosa Aminta e a servente, seguindo o
exemplo de Molière[5],
e leu-lhes o manuscrito. É claro que o benévolo auditório aplaudiu comovido o trabalho do romancista. Animado com o
fácil triunfo, Emílio mandou imprimir o livro, enviou-o aos jornais, que o elogiaram sem o lerem e foi à Academia
das ciências oferecer alguns exemplares com título de candidatura.
Emílio já era sócio de vários institutos nacionais, mais ou menos literários,
mais ou menos científicos; mas o diploma que mais ambicionava, e que seria a sagração definitiva da sua glória,
era o da Academia. Por ele, de boa mente daria todas as distinções com que até àquele momento lhe tinham
assinalado o valor. Que diabo! Em Portugal toda a gente que sabe ler e escrever, ou que se suspeita possuir aquela
prenda, é bacharel ou académico e, todavia, só dele ainda ninguém se tinha lembrado! Emílio esperava, pois,
que desta vez lhe fosse feita justiça.
Infelizmente o homem põe e Deus dispõe. Passaram dias, passaram meses,
passou um ano e a Academia não dera acordo de si. Abotoou-se com os exemplares e nem sequer acusou a recepção.
Decididamente alguém havia naquela corporação que teimava em lhe fechar
as portas. Algum invejoso, algum inimigo oculto. Talvez o conselheiro Beltrão, que estava servindo de secretário-geral
e com o qual tinha brigado na imprensa sobre a formosa questão de saber-se se devia escrever-se
sapato ou çapato.
O caso é que o médico doeu-se profundamente, mas não desanimou. Teimou
como Zola[6]
e sem se importar com o ridículo da alcunha que lhe poriam, de
"pretendente crónico", continuou a trabalhar e a
requerer. Fez novo romance, menos pesado, menos erudito, mais fútil, com bastantes galicismos, enfim, mais
compreensível a sábios. Chamou de novo o seu auditório doméstico e teve o imenso júbilo de ser abraçado por
Aminta, numa efusão de entusiasmo, e de ver borbulhar algumas lágrimas nos olhos da cozinheira.
Reimpresso o novo livro, o pretendente voltou a apresentá-lo à Academia,
requerendo um lugar no douto cenáculo[7].
Mas não foi mais bem sucedido. Como da primeira vez, ninguém lá quis saber da obra nem do autor.
O seu desespero
chegou então ao cúmulo; queixou-se amargamente a alguns
amigos e declarou-se acintosamente[8]
perseguido e vilmente roubado nos seus direitos. Comparava-se
imodestamente à maioria dos insignificantes que tinham
as honras do colar[9]
e lho negavam a ele que, só por si, valia uma academia
em peso. E enquanto o preterido desabafava os seus
despeitos no seio amantíssimo da sua companheira,
quase que sua colaboradora, a boa Aminta recordava
com amargura o constante assédio que lhe fazia o conselheiro
Beltrão, por ventura o oculto inimigo que, no seio
da Academia, hostilizava a candidatura do pretendente.
Não podia ser outro. Do negro feito só seria capaz
o velho devasso que a perseguia, que a importunava
com galanteios, que não desistia de lhe mandar propostas
infamantes[10].
- Está, portanto, nas minhas
mãos - concluía a pobre rapariga - a
candidatura de quem me salvou da miséria da rua e, todavia, por tal preço nunca me prestarei a comprar a mercê!...
Mas Emílio não desistia do propósito, que tendo começado por um
capricho, se convertera em monomania. Custasse o que custasse, teimaria até ao fim. Passaria a vida inteira a
estudar, a fazer livros, a oferecê-los à Academia, a requerer, a dar escândalo.
Pelo visto, a prosa não agradava ou não a entendiam. Lançou-se então
abertamente nos domínios poéticos. Produtos do erotismo
romântico e do pessimismo de Schopenhauer[11],
os seus versos davam a sensação rude duma rajada de vento em floresta escura, por noites de temporal desfeito.
Cada remate de estrofe era como o tombar de cedro gigante em encosta deserta. Esses cantos lúgubres, misto de
Ossian[12]
e de Byron, tinham a vibração soturna e austera, duma
salmodia[13] de enterro.
Não podendo comprimir nas ânforas apertadas do
metro[14],
a seiva torrencial da inspiração, nessa terrível luta de talento com a arte, terminava quase sempre por se
render à descrição, exausto e vencido; e então estorcia-se em queixumes, em recriminações, em angústias,
desatando a chorar como as crianças. Chorava porque a sua
dor não era fictícia como a de Petrarca[15];
rebentava-lhe de dentro e corria-lhe ao rosto a beber-lhe as lágrimas, a queimar-lhe as faces, como essas lavas que
o vulcão arroja e depois engole.
- Vê tu, Aminta - exclamava, arrancando os cabelos, com todos os indícios
de alucinado. - No silêncio destas noites tormentosas a alma doente procura um ponto de
apoio onde repouse e não o acha. Onde é que está a luz
sonhada por Goethe[16]?
Com o Fausto[17]
na mão, inutilmente procuro a lâmpada que dissipe as
trevas em que vivo. Werther[18],
a teoria bela mas terrível de suicídio, tortura-me o espírito, outrora tão crente nos homens e na justiça. Justiça! O
que ela tem sido para mim, sabe-lo tu, minha boa Aminta.
Nesses momentos, rugia como um leão ferido, erguia-se em pé, formidável,
com os cabelos no ar, olheiras fundas, olhar dardejante e balbuciava incongruências.
Foi num desses acessos febris que se lhe manifestou a monomania de perseguição.
Os que mais lhe deviam querer, eram os seus mais encarniçados inimigos. O aneurisma, de que havia de morrer, foram eles,
os invejosos da sua glória, os ladrões da sua honra, os insignificantes da Academia que lho cravaram ali, no coração,
com a ponta dum estilete molhado na água triférrica[19]
dos Bórgias[20].
Nos intervalos lúcidos dos últimos dias falava serenamente da vida e da
morte, e parecia não se amedrontar com esta, nem murmurar daquela.
Na sua preocupação de erudito, discorria calmo, citando o exemplo de
Sócrates[21],
com o qual imodestamente se comparava.
- Vê este livro - dizia ele à condescendente Aminta, que nada compreendia daquelas altas
filosofias - vê este livro; é de Séneca[22].
Se soubesses que tesouros de consolação encerra a
doutrina dos estóicos[23]!
Et mors, quam pertimescimus ac recusamus, intermittit vitam, non eriptt. Veniet iterum qui nos in lucem reponat
dies. É um grande alívio para as almas oprimidas na terra, a esperança de um dia melhor no céu.
E demais[24],
a ideia da brevidade da vida também encurta a extensão do sofrimento. Aquela esperança tem-me dado tantas forças
para a luta que, sem ela, jazeria a esta hora esmagado, debaixo dos sapatos dos meus implacáveis inimigos, os
tartufos, que cuidam aniquilar o meu nome, repelindo-me do seu grémio.
Uma vez, em frente dos dois, sobre a papelada revolta que pejava a mesa do
trabalho, sorria dum modo lúgubre, como a cara dum bobo, uma velha caveira desdentada. Para distrair a fantasia trágica
de Emílio, a solícita Aminta fez-lhe notar a expressão irónica daquela boca sem vida, escancarada como se
quisesse morder no Darwin[25],
que lhe ficava ao lado. Mas o médico, embebido nas suas cogitações, sem olhar para a caveira, prosseguiu:
- Entre a vida e a morte, a luz e a treva, existe o sepulcro. O sepulcro é
apenas uma passagem misteriosa. Os mitos da filosofia pagã, áurea da sobrevivência do espírito, são o claro
espelho do temor íntimo da humanidade. No meu espírito sempre acharam eco simpático, as descrições dos Campos
Elíseos, de Homero[26],
as fantasias de Milton[27]
e as teorias dogmáticas de Dante[28].
Desde que Homero disse: "de quantos seres respiram e se movem à superfície da
terra, o homem é o mais infeliz", esta sentença ainda não foi derrogada pela experiência. Mas não é por isso que eu acredito
na existência dum tribunal que recompense, que faça justiça; já que na terra a justiça é uma mentira.
Deixa-me, pois, Aminta, perguntar às flores que brotam dos cadáveres e aos venenos que,
nas sepulturas, roem os seios das virgens, o que querem dizer as tristes alegorias do futuro, no qual a minha pobre razão naufraga. Às
vezes quase chego a confiar nos absurdos da metempsicose[29],
quando medito naquele alto espírito que inundou de luz, o Pórtico[30],
e séculos depois apareceu em Roma a falar pela boca de Cícero[31].
Não, o espírito que em mim ainda vive, esta vibração que me agita as fibras, mas já não anima os tecidos daquela caveira a rir-se perpetuamente de
Darwin e do Quatrefages[32], a força que me obriga a crer, a duvidar, a
maldizer e a raciocinar, não morre, não pode morrer. Epicuro[33]
mentiu, que o disse o seu discípulo Celso[34]:
A filosofia cristã fez confessar a Bayle[35]
e a Rousseau[36]
a verdade que retalhou os lábios de Plínio[37].
Nós somos os reféns que esperam o resgate. O resgate é
a morte. Bem-vinda seja ela!
Ao terminar,
cravou os olhos negros e interrogativos em Aminta,
que chorava. O seu aspecto era horrível. O doente
levou os punhos cerrados ao coração onde tinha uma
brasa viva a queimar-lhe a vida, retalhou os beiços
com os dentes afiados, mordeu a pele das mãos, como
um hidrófobo[38]
e expeliu rubras hemoptises[39].
Decididamente Emílio Dantas estava perdido para ela
e para a Academia. O pretendente sucumbia na luta.
Mas a grande dor da preterição é que não lhe passava da garganta. Já
lhe não custava morrer, mas não se resignava a deixar o mundo sem alcançar primeiro a justiça que lhe era
devida. Era por esses processos, de requintada iniquidade e de grosseira inveja, que desfaleciam ao desamparo tantos
génios embrionários que erravam na sombra da obscuridade em procura dum braço amigo que nunca encontravam.
Quantos, de quem Byron se orgulharia de ser rival? Miséria humana que leva
Chatherton[40]
ao suicídio, o cantor de Armida[41]
ao hospital, Camões[42] à fome!
- Bem vês, Aminta, o caso[43]
que esses enfatuados fizeram dos meus poemas. Nem se dignaram agradecer a remessa.
É demais. Capazes são eles de virem a minha casa,
de noite, arrombar essas gavetas e furtar os meus
originais; talvez para depois da minha morte, se nobilitarem
com a glória alheia. São capazes de tudo esses insignificantes,
em meio dos quais eu pressinto a mão covarde e vingativa
que me fecha as portas, como a um cão que o mordeu
no orgulho e o prostrou no combate leal. Beltrão,
Beltrão! Desse-me Deus vida por alguns dias e as nossas
contas ficariam liquidadas de vez!
Infelizmente, dias depois, ao cabo de longos acessos crudelíssimos, o
pretendente, roído pelo aneurisma estava prestes a expirar. Aminta impelida por uma inspiração súbita,
abandonou rapidamente a cabeceira do enfermo, dirigiu-se, ao cair da tarde, ao edifício da Academia e encontrando
na escada o conselheiro Beltrão, que estava dando as últimas ordens para a sessão nocturna daquele dia, disse-lhe em
tom resoluto, com um leve tremor na voz:
- Venho comunicar-lhe que deliberei aceitar as suas propostas, mas com uma
condição.
- Qual?
- O Dr.Emílio Dantas há-de ser hoje votado sócio da Academia.
O académico reflectiu um momento, envolvendo o lindo rosto de Aminta num
demorado olhar interrogativo e cobiçoso. Caiu a noite, a sessão era às nove. O parecer não estava feito. O
secretário consultou o relógio e respondeu:
- Aceito! Antes da meia noite, o seu protegido estará eleito pelos meus
colegas, sócio da nossa Academia.
O homem cumpriu a palavra dada. À meia-noite, com efeito, um contínuo
trazia a Aminta o diploma do Dr.Emílio Dantas.
Quando Aminta lho entregou, o novo académico agonizava. Ainda estremeceu no
leito parecendo sorrir, e com voz sumida murmurou:
- "Depois
de burro morto..."[44]
Foram as suas últimas palavras.
Na tarde seguinte, à saída do cemitério, enquanto o respeitável
conselheiro Beltrão, com o riso amarelo de quem foi logrado, seguia duas mulheres que lhe fugiam, Aminta soluçava
inconsolável e a velha servente desabafava a sua grande dor irreprimível:
- Meu desgraçado amor! Tanto leste que tresleste[45]!
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