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Conto completo extraído do livro
"FIGURAS DE GESSO"
Histórias contemporâneas - 4ª Edição (on-line) |
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O
Vaso de Cristal |
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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011 |
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I
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Alto, pálido e seco, ligeiramente corcovado como todos os míopes, o famoso
Tristão aparece em toda a parte a farejar o escândalo e
a explorar a anedota. É um ardilão[1].
Quando vai passeio fora, sereno e ligeiro, de mãos discretamente metidas
nos bolsos do jaquetão felpudo, nas manhãs frias de
Inverno, a sua atitude descuidada e feliz é a de um
conselheiro que traz o ordenado pago em dia.
Não é positivamente um casquilho[2]
nem um jarreta[3],
não traz o hábito de Cristo, nem possui cartas de
bacharel; vive dos seus rendimentos e dispõe de
propriedades no Ribatejo. Sem ser um vadio, mete, contudo,
o nariz nas lojas de modas, nas cervejarias e nos camarins
das actrizes baratas.
A sua popularidade ficou feita, desde certo dia em que foi chamado ao
tribunal para depor como testemunha.
- O seu nome? - perguntou-lhe o juiz.
- António Alves Tristão.
- O seu estado?
- Não percebo...
- Pergunto à testemunha - redarguiu o magistrado - se é solteiro, casado
ou viúvo?
- Ah! - replicou o Tristão imperturbável - Nem solteiro, nem casado, nem viúvo; pertenço aos neutros.
Desde esse dia, o nome de Tristão ficou legendário.
Quando nos encontrámos
pela primeira vez na província, Tristão era um imberbe,
muito branco de carnes e ameninado; usava luneta com
aros de oiro e queixava-se de dispepsia[4].
Quis o acaso que ele se sentasse ao meu lado, em certa noite, na plateia do
Teatro Académico. Íamos ver a Dama das Camélias[5],
por uma companhia lisbonense de que faziam parte a Emília
das Neves[6]
e o Tasso[7].
A sala transbordava,
nos camarotes não havia lugar para um alfinete. O
meu vizinho estava radiante na sua sobrecasaca lustrosa
e rodando a sua pequenina cabeça penteada, em todas
as direcções, parecia procurar com os olhos no vasto
semicírculo alguma pessoa querida.
Mas a orquestra dava
as últimas notas, e o pano, ringindo nas roldanas,
subia lentamente, ao passo que da ribalta irradiava
uma intensa luz festiva.
Após breves momentos de silêncio, principiou o espectáculo. Logo às
primeiras confissões amorosas, soluçadas por Tasso
naquela sua melopeia[8]
tão sentimental e tão carinhosa, Tristão não pôde
conter-se e, voltado para mim, murmurou em surdina: - Que
beleza!
Depois, a paixão vai crescendo, crescendo, como a onda que sobe; as
impurezas da libertina começam a esbater-se nas virtudes
da amante; a distância entre o alcouce[9]
e o lar desaparece gradualmente até que o vencido Armando[10]
chega a encontrar, nos tesouros da sua generosidade heróica,
o esquecimento e o perdão para as antigas culpas da mundana Gautier.
Daqui por diante as cenas atropelam-se, arrastando os acontecimentos na vaga
de uma fatalidade crescente. A entrevista do pai de
Armando com Margarida, as cenas do ciúme brutal, a devoção
mal compreendida, os punhados de oiro arremessado à cara
da vítima, a aproximação da catástrofe, todos os
lances deste trágico poema de lágrimas, que é a
glorificação do lupanar[11],
comovem profundamente os espectadores e arrancam lágrimas
a Tristão que, em pé, junto de mim, grita e aplaude como
um doido.
E quando o pano desceu, pela última vez, o meu vizinho, arquejante, com os
olhos inchados, agarrava-se a mim nervoso e tétrico, e
dizia-me: - Que desgraça, meu Deus!
A desgraça era a morte de Margarida.
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II
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À saída do teatro, quando acendíamos os nossos charutos e levantávamos
as golas dos nossos casacos, Tristão, que me trazia
filado pelo braço, adiantou-se para cumprimentar um grupo
que vinha arrastado na onda, ao nosso lado. Era a família
Torres, duas senhoras e um cavalheiro. Dª.Maria, a viúva
do major Torres, era um tipo vulgar: cara larga e
vermelha, sobrancelhas espessas e duras, o buço pendente
ao canto da boca. A filha, porém, era outra casta de
mulher: alta, direita, flexível, sorridente e
explicando-se bem; impunha-se pela elegância simples do
trajo e pela distinção estudada das maneiras. Costureira
ou cortesã, Dª. Rosália era, em todo o caso, um belo
tipo de mulher.
Junto delas estava o primo Gaspar, cheio de importância e de almíscar[12],
cofiando as suíças raras, compondo as guias do bigodinho
encerado – dicaz[13],
prazenteiro e mexendo-se muito.
Este primo Gaspar regia orquestras nos teatros, dava lições de piano por
casas particulares, compunha marchas para as filarmónicas
de aldeia e riscava desenhos para bordados.
Quando nos despedíamos,
a formosa Dª.Rosália ofereceu-lhe o braço num movimento
gracioso e o bom Tristão, vendo-o desaparecer ao longe,
imergindo na treva, muito ufano, muito gárrulo[14],
saltitando em bicos de pés, teve esta frase de inveja
ou de despeito:
- É muito feliz o maganão[15]
do Gaspar!
Mas, principiava a chover, os lajedos reluziam, a luz dos candeeiros na rua
agonizava sob a espessa nebrina e um vento frio picava de leste.
De um pulo atravessámos a rua molhada e invadimos o café próximo, a fugir
da chuva.
Vieram grogs[16]
para aquecer.
Em frente de mim, de cálice em punho, o amigo Tristão estava muito
comunicativo e não cessava de fazer o elogio do drama de Dumas.
Achava deliciosa aquela moral humanitária que redimia pelo amor...
Eu bebia calado, como os frades.
- A propósito, sabes que sou noivo? - acrescentou o meu companheiro,
desfechando sobre mim à queima roupa.
- Não sabia. E a noiva?
- A filha do major Torres.
- Ah! É galante... E a respeito de?...
Tristão explicou: Rosália não era muito rica, mas que diabo! Dinheiro
tinha ele, de sobra. Sempre embirrara com os casamentos de
interesse, davam mau resultado. Desde que lhe morrera o
pai e a mãe, logo fez tenção de procurar uma esposa,
meiga e carinhosa, embora pobre, mulher que pensasse nele,
que lhe cuidasse das suas coisas e fizesse a sua
felicidade doméstica. Aquela vida de solteirão não
tinha jeito nenhum, era trivial e aborrecida...
Vieram mais grogs.
Tristão estava cada vez mais expansivo:
« Vi-a pela primeira vez, numa igreja, em Sexta-feira
santa. Rezava pelo seu livro de orações, de joelhos,
e quando por acaso percebeu que os meus olhos procuravam
os seus, o livro tremeu-lhe nas mãos.
Da igreja segui-a pelas ruas sem fim, atraído por
tanta beleza; passei-lhe à porta muitas vezes, devorado
de saudades; escrevi-lhe longas cartas e respondeu-me;
pedi-a em casamento e eis tudo. Hoje sou o seu noivo
e daqui a um mês, serei o seu marido. Já vês que tens
diante de ti o mais feliz dos mortais... »
Quando ele acabou, veio-me à lembrança, não sei porquê, a figura esquipática[17]
do Gaspar.
- Uma pergunta, amigo Tristão - O teu futuro primo Gaspar, vive em casa da
tua futura sogra Dª.Maria?
- Porque mo perguntas?
- É porque os primos são como os pombos, sujam as casas, quando não
pregam sustos aos noivos.
- E não foi pequeno o que ele me pregou a mim.
E o ingénuo Tristão contou:
« Na esperança de a ver, passava-lhe à porta, de dia
e de noite, como te disse. É o costume de todos os
namorados. Num desses passeios bucólicos, à meia-noite,
logrei a suprema ventura de a ver. Por certo esperava-me.
Isto sucedia nos primeiros dias das nossas relações,
depois da cena da igreja. A Omphale[18]
do meu coração lá estava na alta janela, meio velada
pelo transparente, como num altar a madona. Languidamente
apoiada no parapeito, cismadora, como as virgens da
balada, esperava-me talvez. A Lua batia-lhe em cheio
no rosto alvíssimo, dando-lhe um encanto etéreo. O
meu olhar devorava-a de longe; mas, não sei porquê,
o pudor detinha-me na sombra, como se tivera os pés
chumbados no solo.
Neste estado de perturbação passou por diante dos meus olhos, como num
cosmorama[19],
o quadro luminoso da felicidade do lar. No fundo da alcova
nupcial, o tálamo olorante[20]
de cortinas entreabertas; no chão as flores virginais da
laranjeira; na poltrona, aos pés da cama, o seu vestido
de noiva; ao lado os chapins[21]
de seda, pequenos como duas conchas; caída no tapete, uma
liga de seda; em frente, na parede, a grande moldura
dourada do seu retrato e, no meio destas adoráveis
banalidades, a sua figura de sílfide[22]
vaporosa na alvura das cambraias; irresistível e fatal...
De repente sentiu-se ao longe um rumor de passos. Um vulto aproximou-se,
cosido com as paredes e falou para cima. Era um rival que
vinha disputar a minha felicidade. Quis arremessar-me
sobre ele; mas, a prudência conteve-me. A minha noiva
tinha-se retirado da janela e, momentos depois, abria-se
cautelosamente a porta da rua... Uma nuvem negra passou,
então, no azul, escurecendo a face da Lua, e eu
compreendi que a minha pobre cabeça ia estalar. Fugi
desnorteado.
Ao chegar a casa, peguei da pena e escrevi à pérfida[23]
nestes termos, pouco mais ou menos:
- Minha senhora, julguei que poderia amar-me com exclusão dos outros,
enganei-me. A cena que ontem presenciei é inqualificável.
Quem se permite à desvergonha de aceitar entrevistas; à
meia-noite; no fundo de uma escada, não merece os
extremos[24]
que lhe devotei. Agora já eu não poderia amá-la; mas,
depois do que entre nós se tem passado, seria isso o
mesmo que perdê-la e perder-me. Pela sua felicidade lhe
peço que tenha dó de mim ».
- E tu escreveste isto? - interroguei maravilhado.
- Vais ver a resposta -
atalhou o Tristão ingerindo novo grog.
« A tua carta é um insulto que eu não merecia. Unicamente
o ciúme tem olhos para ver infâmias nos actos mais
inocentes. O rival que tu fantasiaste, era meu primo
Gaspar. Compreendes agora? Que motivos tens tu para
malsinar[25]
com as tuas suspeitas uma pessoa da minha família?
»
- Que dizes a isto? - rematou triunfantemente.
Os olhos de Tristão iluminavam-se agora de um brilho estranho, as suas
palavras eram sacudidas e bruscas. Nas salas próximas
sussurrava o burburinho soturno dos estabelecimentos
repletos, o arrastar de cadeiras, o choque das bolas de
bilhar, a gargalhada franca e o estalido monótono das
beiras[26]
escorrendo nos lajedos dos passeios.
Ao levantar-se da mesa, esgotado o último grog, Tristão cambaleava
e com os olhos errantes pelo tecto dizia-me alheado num
pensamento doce:
- É possível que a Margarida Gautier seja uma quimera. Embora, o que eu
sei é que aceitaria de boa mente o generoso papel de
Armando Duval.
- Na sala ou no bordel?
- Onde ela quisesse. No inferno que fosse.
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III
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Um mês depois, Tristão era marido de Rosália.
Dª.Maria e Gaspar acompanharam o casal. Fixada a residência em Lisboa, a
vida decorreu-lhes serena e apetecível na mais
encantadora das luas-de-mel. Rosália espanejava-se
contente e feliz, na sua gaiola dourada e rica, enquanto Dª.Maria,
a abelha mestra, cuidava da casa.
Gaspar andava contentíssimo; a vida da capital agradava-lhe, porque as suas
aptidões artísticas eram apreciadas e bem retribuídas.
Nas horas vagas frequentava a casa de Tristão e trazia
sempre uma ária nova para executar no piano. Rosália
morria-se pelas árias novas do primo e, se eram a quatro
mãos, agradecia-as com lágrimas nos olhos.
Tristão andava também num sino[27]
e muitas vezes, ao chá, repetia, para vergonha de Gaspar,
a cena picaresca[28]
do fundo da escada, exagerando o susto que tivera. O
Gaspar não gostava de ouvir a história; mas a Rosália
achava infinita graça ao marido e, beijando-o no rosto
diante de todos, recompensava-o do susto que lhe causara.
O que mais penalizava a boa da Rosália eram as saídas amiudadas do seu
maridinho para as propriedades do Ribatejo. Felizmente
ficava o primo a fazer-lhe companhia, o bom Gaspar, que
nesses dias abandonava as suas lições para que a prima não
ficasse só. Se tivessem um filho, um gracioso bambino,
que povoasse de gritos e risos a solidão doméstica, a
vida seria mais doce de levar; mas, enfim, estava o
Gaspar, e era o que lhes valia.
Mas Rosália, apesar de tudo, não era inteiramente feliz. Começavam a
invadi-la sonolências esquisitas, nevralgias, espasmos e
tédios sem fim.
A sua casa era confortável e fora mobilada sob a sua direcção artística;
gentil e nova, vestia das primeiras casas; cortejavam-na
as pessoas mais qualificadas da alta sociedade de Lisboa;
tinha assinatura nos teatros; mas não era feliz. E não
era feliz porquê? Não o sabia dizer. Tinha noites de um
mal-estar horrível e dias de cruel hipocondria[29].
Uma preguiça invencível a tomava, prostrando-a, como se
lhe tivessem batido.
Às vezes, nas melancólicas tardes de Inverno, sentava-se à janela a olhar
para a rua, para o céu, para os mudos prédios
fronteiros, como idiota, sem compreender o que via.
Tinha-lhe morrido a mãe
e o governo da casa andava por mão de criados. Quando se
lembrava de outros tempos... vinha-lhe ao coração uma
grande vontade de chorar.
Evidentemente aquela opulência mortificava-a. Muito mais feliz era ela
quando solteira, possuía apenas o magro montepio[30]
que lhe deixara o pai e resumia os seus cuidados na
leitura dos romances de Dumas. Se não fora o primo,
aquele belo rapaz artista que tão perfeitamente a
compreendia, já teria alijado[31]
o fardo da existência.
O Tristão não era mais feliz. Engolido pela voragem das despesas
crescentes, o património paterno minguava a olhos vistos.
Para a instalação da casa, vendera algumas propriedades
e depois empenhara-se no Banco hipotecário. Mas nada o
incomodava tanto como o frequente mau humor da mulher,
sempre nervosa, sempre aborrecida. Que teria ela? Já não
o amava? Talvez! E esta dúvida dilacerava-o.
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IV
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Como não tivesse visto o morgado do Ribatejo, desde certo tempo, resolvi
procurá-lo em sua casa.
O guarda-portão estava no átrio, imponente no seu comprido uniforme cor de
castanha, largo boné agaloado[32]
e grandes suíças ruivas.
- O Sr.Tristão está em casa?
O homem das suíças abanou a cabeça melancolicamente e contou-me tudo:
No primeiro andar daquele prédio sucedera uma grande
desgraça. A senhora, pelos modos, tinha um primo e
o marido surpreendera-o num desses encontros delicados...
Houve ralhos, choros e gritos lá em cima, que parecia
o fim do mundo. Era meia-noite, foi quando o Sr.Tristão
recolhia do teatro. Depois acomodou-se tudo e pela
manhã, a senhora e o tal Gaspar, saíram num carro
fechado não sei para onde; os criados foram despedidos
e o morgado, depois de fechar tudo, saiu também e
não voltou mais.
- Quando sucedeu isso?
- Haverá vinte dias - respondeu o homem, de boné respeitoso na mão.
Fiquei informado. O vaso de cristal partiu-se como eu supunha, sem que
lograsse soldá-lo a pingos de amor, a teoria humanitária
do autor da Dama das Camélias.
Positivamente, o famoso Tristão iludia-se quando imaginava que nas veias
lhe corria o sangue dos Armandos.
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Agora o meu amigo dos belos tempos findos explora o escândalo e os restos
do património paterno, percorrendo as ruas de Lisboa e
metendo o nariz nas lojas de modas, nas cervejarias
ruidosas e nos camarins das actrizes baratas, sempre a
andar, sempre a rir numa despreocupação feliz.
Quanto ao vaso de cristal, sou informado, por alguns rapazes experientes,
que fora atirado pouco depois às águas turvas do bordel
pelo primo, rei de Thule[33],
e que, sendo mais tarde arrastado no lixo para as sarjetas
da baixa, viera parar às mãos de alguns marujos
avinhados, os quais experimentando-o de novo, reconheceram
que o tal vaso tocava[34]
muito a quebrado.
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