|
Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011 |
|
______________
|
Quando lhe morreu o pai, e dias depois a mãe, fez-se no coração de Artur
uma grande tristeza. A vida pareceu-lhe um fardo insuportável e a alegria dos outros, um sarcasmo.
Errante de vale em vale, como um lobo ferido de morte, o desditoso ululava
de dor, e no auge do desespero pedia ao Deus de Israel a esmola de um raio que o fulminasse de vez.
Era poeta e moço, o loiro Artur, mas de que lhe serviriam agora a poesia e
a mocidade, perdida a esperança e mortas as mais santas afeições da sua alma?
Sucedeu porém, um dia, que regressando dos campos à cidade e passando
pelo cemitério, ao cair da tarde, os seus olhos amortecidos de chorar lobrigassem à distância, como a
visão de um querubim, a gentil figura de Noemi, coroada de estrelas, ungida de perfumes, braços abertos, avançando
para ele. Foi um deslumbramento.
Descia a noite e na sombra crepuscular destacava, cada vez mais distinta e
luminosa, a alta e flexível estatura de Noemi, cuja cabeça parecia topetar[1]
nas nuvens e cujos braços se alongavam desmesuradamente para ele.
Desde essa tarde, a lira de Artur Isac vibrou de novo tangida por dedos
misteriosos; o coração do menestrel[2]
exultou de júbilo como se o agitasse o frémito de um suspiro e nunca mais o pálido trovador pediu ao terrível
Deus de Israel a esmola de um raio que o fulminasse de vez.
A sua felicidade não tinha limites, a vida parecia-lhe magnífica, e a Lua,
mal que repontava na cumeada, pousava-lhe nos cabelos loiros a coroa dos imortais.
As noites e os dias passava-os num sonho deleitoso, embebendo nos seus o límpido
fulgor dos olhos dela, tão coruscantes[3]
e tão poderosos; ao passo que a eleita do seu coração tomando-lhe a pequenina cabeça entre as mãos, a cobria
de beijos, ou, descuidada, ia passando com volúpia os dedos aristocráticos pelos anéis de seu cabelo de oiro.
Mas veio um dia e o sonho desfez-se. A ave desmanchou o ninho, bateu asas
e voou em demanda de outros climas. Um rabino do país dos filisteus, grosso e rico, vendo-a na alta varanda e
encantado de tão peregrina[4] beleza,
acenou-lhe com um punhado de oiro, e a filha de Eva não pôde resistir às fulgurações do precioso metal.
Artur cuidou, então, que era chegado o seu último dia. Arrancou os cabelos,
rasgou os vestidos e por um triz não deu um pontapé na lira.
- Mulheres! Mulheres! - bradava o triste, reproduzindo Castilho[5] - Pudesse
uma só nau contê-las todas, e o piloto fosse eu!...
Desiludido, gasto, mortalmente ferido e sem esperança de cura, Artur Isac,
passou depois a morar num 5º andar da Baixa, com vistas para o Tejo.
Naquelas alturas, longe do mundo e perto do azul, o desprezado de Noemi
curtia as suas penas e fabricava as suas elegias, ao abrigo da carta e da municipal. Os sarcasmos do mundo não
chegavam lá e as suas cóleras não incomodavam a polícia. Podia dizer-se que vivia no ar, com os pássaros, ou nos
intermúndios de Epicuro[6], como os bem-aventurados.
À sua natureza de poeta lírico, em divórcio com os felizes, acomodava-se
perfeitamente o silêncio calmo daquelas altas regiões serenas, onde o sussurro dos cafés e os gritos dos pregões chegavam amortecidos.
Dali podia desafiar impunemente os homens e as mulheres, o céu e a terra,
como o seu parente Ezequiel[7], fustigando os vícios e a corrupção do século, num crescendo de cólera métrica
feita de maldições e alexandrinos[8].
Aquele 5° andar,
cumulativamente Parnaso e Sinai[9],
era a sua tribuna de apóstolo e o seu trono de rei absoluto. Verdade seja que o apóstolo não tinha auditório e o soberano não tinha
súbditos, mas que importa isso aos predestinados que falam para a humanidade e aspiram às sagrações do futuro?
Uma coisa o entristecia e fazia pensar nas pequenezas do mundo: o descaro[10] da
vizinhança.
Ou descesse ou subisse as escadas do prédio, saíam-lhe sempre ao encontro umas figurinhas esguias, arrastando chinelos de trança,
ruidosas saias brancas engomadas, cabelos soltos e garibáldis[11]
vermelhos, deitando-lhe garotamente a língua de fora.
Numa ocasião quiseram agarrá-lo pela cinta, e uma levou o atrevimento mais
longe - chamou-o por tu, e quis beija-lo! Artur, porém, fugiu indignado e, entrando à pressa nas águas furtadas,
empunhou a pena e compôs uma sátira vingadora que rematava assim:
Messalina[12],
Messalina,
Não és mulher, és sentina[13].
*
Nessa mesma noite as descaradas filhas de Eva, entretidas a engomar saias
para as filhas dos homens, largaram os ferros de repente, tomadas de espanto.
Em cima troavam grandes vozes inflamadas. O tecto oscilava e os
madeiramentos rangiam. Foram espreitar pela fechadura da porta. Artur Isac em mangas de camisa,
gesticulando com os
punhos cerrados, em pé no meio de quarto, perorava[14]:
«Job, vem ver o teu retrato. Tu, que amaldiçoaste o dia em que nasceste,
devias sofrer assim na angústia do desamparo.
Tu, para quem a vida era uma sombra, devias chorar a perda dos amigos, como eu choro a perda de meus pais.
Tu não tinhas no coração o remorso duma culpa; eu também pergunto a Deus porque me castiga.
Os teus propínquos[15]
abandonaram-te; os meus, olho em volta, e não os vejo!
Tu vias a cada momento a derradeira hora e perguntavas-lhe porque se
demorava; a minha, chamo por ela em altos gritos e foge-me!
Protótipo do sofrimento, mostra-me do céu a palma da tua glória e conforta-me na via dolorosa!
Meu Deus, não posso amaldiçoar-te! As tuas criaturas é que te desonram, Senhor!
Os teus filhos blasfemam chamando-te pai!
Onde se oculta o raio da tua ira, que deixas impunes os profanos que tripudiam sobre a tua lei, à face dos teus altares?
Mortalha de Job, envolve-me nas tuas pregas!
Mulher que me perdeste, porque me tombaste no inferno, se não podias dar-me
o céu? Porque esmagaste um coração que eu tive a fraqueza de sujeitar aos teus caprichos? Se não tinhas
força para me salvar, porque me chamaste para além do abismo?
Mulher, que te perdeste! O raio do céu lascou o cedro e não poupou a vida
que se enleara ao tronco! Que culpa teria eu para expiar quando, pela primeira vez, ousei dizer que te amava?
Porque não ouvi eu a consciência que te chamava mulher, ao contrário do
coração, que te chamava um anjo? Porque não acordei eu quando a tua mão de gelo acendia a chama que me queimava?
É que a luz sereníssima do céu se reflectia nas minhas contemplações e
tu não ajoelhaste comigo aos pés do Deus que eu adorava.
Eu ainda cria no amor que, em sangue, gotejava das feridas de Cristo e tu não
compreendeste que o coração do poeta vive do amor, e o amor, é o espelho de Deus, como a Lua é o reflexo do Sol.
Se soubesses, mulher, o que é o amor que enobrece e vivifica o amor do
poeta, devias respeitá-lo; como eu te respeitava a ti na santidade das minhas intenções!
Hipócrita, que me falavas do céu e me sepultavas no inferno! Eu não devia
acreditar-te, mas a inocência facilmente se ilude! As minhas palavras lisonjeavam a tua vaidade e tu deixavas-te amar!
Porque vieste com a tua espada de fogo expulsar-me do paraíso? Porque
sopraste hálito impuro às flores da minha esperança? Porque veio a tua risada prenunciar o estalido da
tempestade que hoje esbraveja nos céus anuviados da minha alma?
Hoje que me resta? As úlceras que abriste e o remorso de te haver amado! Não
me pejo[16] de te dizer que me coram as
faces de vergonha quando passo por ti. As lágrimas, se eu as tivera, poucas seriam para lavar esta nódoa!
E tu, víbora, não conheceste que para as grandes almas o amor é uma
virtude! Para onde fugiste, desgraçada, quando à porta do homem que te deu um pedaço de pão, bebeste a cicuta
da tua desonra? Hás-de, em breve, pedir a Deus o aniquilamento quando o homem que te comprou, te expulsar
da sua porta pelo seu criado.
Diz me o coração que um dia te lembrarás de mim; mas, então, não serei
eu o anjo da tua guarda, antes o poste, onde te abraçarás convulsa nos últimos estertores. Hás-de recuar de
espanto quando o meu cadáver passar por ti às gargalhadas...»
Neste ponto a voz do profeta parou estrangulada. As raparigas no corredor
soltaram uma gargalhada uníssona, bradando em coro:
- Fora o urso!
Mas Artur Isac, encolhendo os ombros em ar de desprezo soberano, prosseguiu
impávido:
«Ó tempos felizes da mocidade, como vós me lembrais agora!
Então os homens eram todos irmãos, as mulheres todas irmãs - pétalas da mesma flor.
À noite sentavam-se todos em volta do mesmo lar e a benção de Deus caía sobre eles.
E quando o sino chorava pelos mortos, pedindo a oração dos vivos, os homens e as mulheres erguiam as mãos e punham-se a orar.
Então um velho levantava-se no meio de todos e por todos oferecia a prece fervorosa dos seus corações.
E todos se levantavam e iam, cada um por sua vez, beijar as palmas do venerando.
O mundo para mim era uma família de anjos encostados à sombra da mesma árvore da vida!
O Senhor falava face a face connosco e todos o bem-dizíamos e amávamos.
Um dia o lar apareceu deserto, o fogo não se acendeu, dos cantos da casa saíam
suspiros abafados, como do fundo de uma caverna e todos punham as mãos nos olhos e choravam e não havia consolação
naquele dia.
Num quarto alumiado por dois castiçais havia um leito, sobre ele repousava
um homem e a luz batendo-lhe no rosto cadavérico tornava-o venerando e lívido!
O homem que estava sobre o leito pronunciava umas palavras de amor e uma
mulher que chorava à cabeceira acercou-se do velho e sentiu que chamava por seu filho.
O velho voltou os olhos para a mulher e já não tinha voz para lhe falar nem força para lhe dar o extremo abraço!
Quis levantar-se e caiu extenuado!
Os olhos começaram a embaciar-se e já pareciam da cor do vidro. E
foram-se-lhes sumindo para o fundo das órbitas, de sorte que já não via as lágrimas de sua mulher.
A luz dos castiçais extinguiu-se e ele, dando um magoado suspiro, ficou
frio. Chamaram pelo seu nome e já não respondeu, espertaram a luz e viram que tinha expirado.
E nunca mais houve alegria naquela casa, porque a morte forrou de crepes a mansão dos que eram felizes!
E, quando à noite se reuniam em volta do lar, não se ouviam senão choros de mistura com preces!
O paraíso já não tinha alegrias porque a morte o havia despovoado!
O filho quis ver o cadáver de seu pai e já não viu senão o leito vazio!
E não se chamou desgraçado, porque tinha o amor de sua mãe.
E disse para a solidão - o meu paraíso não está de todo despovoado!
E quando chorava no seio dos seus amigos as lágrimas da sua orfandade,
sentia-se aliviado na sua dor e resignava-se.
No seu paraíso faltava Abraham, mas não havia lá o pecado, porque Deus velava por nós.
E a benção do Senhor caía sobre a nossa família porque andava pelo
caminho da justiça e honrava as cinzas do morto que em vida nos ensinou a resignação.
E na hora em que o Sol dardeja trémulo os raios avermelhados da sua púrpura,
no alto dos cruzeiros do cemitério, um vulto imóvel como as estátuas dos mausoléus permanecia ajoelhado sobre uma
sepultura e chamava por seu pai!
As aves cantavam sobre as dálias da campa o despedimento do Sol, e só elas
povoavam a mansão dos mortos e interrompiam o silêncio dos túmulos.
Havia ali alguma coisa de tocante e sublime que só as grandes almas compreendem.
Olhou em volta e viu-se só em meio de ciprestes, encostou a face abrasada
pela febre ao tronco de uma árvore e pareceu dormente.
Depois, ao acordar, encontrou o coração povoado como nunca; perguntou a
Deus pela causa daquele milagre e o Senhor abriu-lhe os olhos para ver Noemi. Caiu, adorando-a!
Ergueu as mãos para Deus e no fundo do seu coração agradeceu ao Senhor a obra da sua misericórdia.
E o Senhor não lhe respondeu, mas Noemi falou por ele na solidão do paraíso.
E eu disse à solidão - o meu paraíso está bem povoado.
E então a minha felicidade não tinha limites porque o amor do meu coração não cabia no mundo.
Depois, minha santa mãe foi reunir-se a Abraham no céu; mas, o meu lar não
ficou de todo despovoado, porque no mundo ficava a amparar-me a doce Noemi.
E por isso eu respondia aos que me chamavam infeliz - Bendito seja o Deus de Israel.
Mas, em certo dia, não sei que estranho rubor me incendiou as faces, que
suores frios me correram todo o corpo. Tremi de medo e fui para refugiar-me no seio de meu amor.
Ave sinistra piou no meu telhado e a minha alma cobriu-se de tristeza. Eu só pedia a Deus que me desse forças.
E ele deu-mas para tudo, louvado seja o seu nome por todas as gerações!
Quis então abrir os braços para Noemi, e veio uma voz do céu que me disse
- Noemi caiu na lama, não vás levantá-la que te conspurcas - e eu continuei a caminhar.
Corri vales e montes em procura dela; os terrores da noite não me
horrorizavam a mim e Deus dava-me forças para tudo porque eu caminhava para o sacrifício.
A Lua apareceu por detrás do monte e eu agradeci a Deus que me mandava alumiar a via dolorosa.
Guiado por aquele fanal[17]
entrei numa casa escura e, mal entrado, avistei uma mulher
estirada num leito com um filho nos braços.
Aquela mulher também reparou em mim e soluçando escondeu a face entre as mãos
e chorou amargamente. O filho sorria, e sorrindo a castigava.
Reconheci Noemi e não tive palavras para significar a minha dor. Fugi!
Quando vinha a sair, lembrei-me do dito de Lamennais[18],
e disse: «Esta mulher não tem nome senão no inferno».
Então o meu paraíso estava despovoado e o meu viver era pior que o de Job.
Lembro-me que chorei. Mal empregado pranto!»
*
Ainda o menestrel não tinha concluído a frase, quando na escada ressoou um
tropel de passos, e logo uma voz acompanhada de um empuxão na porta:
- Abra!
Artur, desta vez, não encolheu os ombros em ar de desprezo.
Abriu e recuou para dentro da jaula.
Diante dele
estava a alta figura aprumada do Sr. comissário de
polícia, de bengalão em punho. Atrás, junto da porta,
apinhavam-se, formando semicírculo, esquálidas mulheres
de saias brancas e cuias[19]
à banda.
- Como se chama? - interrogou o comissário em tom imperativo.
- Artur Isac, filho de Abraham Fernandes e Rebecca Antunes.
- Da tribo de Benjamim - rosnaram as mulheres de garibáldis vermelhos, soltando risadas escarninhas.
- Calem-se! - repreendeu com severidade o agente da polícia. Que profissão é a sua?
- Poeta lírico - disse o menestrel convictamente.
O comissário pôs então a sua luneta de aros de oiro e fixou-o atentamente.
- Diga-me, há que tempos sofre dessa enfermidade?
Artur não respondeu, mas as mulheres desataram a rir, achando graça à
pilhéria[20] do Sr. comissário.
- Venha comigo.
E como o poeta ficasse imóvel, a autoridade aproximou-se, e lançando-lhe a
mão ao braço direito, impeliu-o rudemente para a porta.
As mulheres abriram caminho para ele passar e o desgraçado desceu as
escadas, cabeça pendente, sem um murmúrio.
Na primeira esquadra[21] respondeu a novos
interrogatórios e pela madrugada foi malhar com os ossos num catre[22] de
Rilhafoles[23],
onde jaz para desonra de Israel e da poesia lírica.
|