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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011 |
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O
sábio Crispiniano estava, desta vez, desenganado.
A morte entrava com ele e já ninguém lho poderia disputar.
Podia acabar de um momento para outro. Os anos e os
achaques tinham concluído a sua obra de demolição.
A notícia andava já espalhada na aldeia e quem mais
a sentia era o velho prior e sua irmã, que sempre
foram afeiçoados àquele velho, agora às portas da
Eternidade. Dos arredores tinham vindo portadores
a saber novas do enfermo e até um hóspede do prior,
o Ernesto, que escrevia revistas literárias num dos
jornais de maior circulação em Lisboa, e casualmente
se encontrava naquela ocasião em casa do pároco, se
mostrava penalizado pelo que sucedia na aldeia. Dª.Violante,
com a lágrima no olho, a tais alturas levantava o
elogio do grande homem, que o próprio Ernesto ardia
em desejos de o ver, antes que a morte o empolgasse.
Este geral sentimento
era, aliás, bem justificado, e a morte próxima do
varão ilustre representava, sem contestações, uma
quase perda nacional, porque o sábio Crispiniano era,
efectivamente, sujeito de grande saber e originalidade.
Misantropo, erudito e acérrimo gastador de rapé, o ilustre Crispiniano
adorava por igual os processos políticos do Sr.D.Miguel
de Bragança[1] e as teorias literárias da falecida Arcádia
ulissiponense[2],
que Deus tenha em sua santa glória.
E como quer que o sábio fosse profundamente versado nas letras da
antiguidade clássica, em cujas lições afervorara a
ingénita[3] paixão
patriótica, citava amiúde com entusiástica ufania os nomes gloriosos de Sanches de
Baena[4],
João Pinto Ribeiro[5]
e Dª.Filipa de Vilhena[6],
a propósito de Curcio[7]
e de Scevola[8].
Crispiniano era um
antigo, na acepção honrada da palavra! De suas origens
pouco se sabe. Andava a estudar para padre, recreando-se,
pelo intervalo das lições, nas leituras apimentadas
de José Agostinho de Macedo[9],
quando foi surpreendido em meio da carreira literária
pelas turbações políticas que sacudiam o reino e abalaram
o trono, no período que vai de 1828 a 1834[10],
e pois que o atrevido malhado[11],
que se chamou Joaquim António d'Aguiar[12],
acabava de expulsar os frades dos domínios da coroa
portuguesa, o admirador do bispo Lobo[13],
perdidas as esperanças da engorda conventual, deu
novo rumo à sua vida, deliberando prudentemente aproveitar
os benefícios da liberdade que detestava. Habilitou-se,
então, para mestre régio de Latim e conseguiu de Passos
Manuel[14],
o fogoso ditador de 1836, o despacho vitalício para
uma das muitas cadeiras que por esses tempos andavam
dispersas pelas vilas do reino.
Duzentos mil reis
de ordenado por seis horas de trabalho diário, a dessorar
o cérebro sertanejo de crianças refractárias à metafísica
da arte do Pereira e ao realismo da férula[15]
clássica, se não constituíam uma independência de
tirar o ventre de misérias, bastavam contudo para
as despesas do meio grosso.
Nessa época mal se compreendia um pedagogo sem lenço vermelho entalado no
sovaco, bengala à diretório, farta pitada nos dedos
engatilhados e caixa circular de tartaruga em punho. O
lavor e o tamanho da caixa davam a medida da
respeitabilidade pessoal de quem a usava.
Ao cabo de trinta e cinco
anos de serviço assíduo, colaborado a murro seco e
a palmatória sibilante, Crispiniano vendo-se pobre,
cansado e devorado de reumatismo agudo, deu por finda
a tarefa de descascar a golpes de férula, mãos encardidas
de analfabetos, pediu a jubilação e fechou a escola.
Da cadeira que fora o seu
trono de rei absoluto e também o seu potro de condenado,
passava agora para o leito, que lhe serviria de ecúleo[16]
nos transes de mal humorada decrepitude.
Só uma vez tentou alevantar-se,
foi quando um vizinho imprudente lhe deu a ler a gazeta,
na qual se estampara insidiosamente que Portugal ia
ser vendido à Espanha pelo gabinete que, na ocasião,
estava à frente dos negócios.
Tomando a sério a arteirice[17]
política, o jubilado fez um esforço supremo para se
desenvencilhar dos lençóis, travou[18]
do bengalão que jazia à cabeceira, ao lado do bote
de rapé e do lenço vermelho, e invocou, solene e cómico,
em brados aflitivos o nome saudoso do seu querido
rei exilado, cujo retrato em velha litografia defumada
ostentava num dos panos da parede do quarto, as suas
espessas barbas alvejantes.
- E vai essa corja de
liberastas[19],
sem vergonha nem patriotismo, entregar o reino aos espanhóis,
quando a doença do Sr.D.Miguel se agrava, no momento em
que o Conde da Redinha[20]
vai partir para Bronbache[21]
talvez para lhe assistir aos funerais, quando já não é
possível apelar para os três estados[22],
pois que esse maldito regime tudo levou de roldão -
costumes antigos, respeito pela autoridade, princípios
religiosos e os haveres da nação! Que desgraça,
Sr.Prior! Que tristes dias nos esperam, Srª.Dª.Violante!
E tomando por tema
o patriotismo, o velho mestre-régio percorreu então
a traços largos, mas firmes, a história dos hebreus,
dos gregos e dos romanos, demonstrando com exemplos
de dedicação cívica, repisados na história, quanto
é belo e sublime morrer pela pátria.
O prior, que o escutava silencioso e confuso, murmurava por entre dentes -
Que génio! Que génio! E sua irmã Dª.Violante, essa
chorava de estarrecida diante do oráculo.
Serenada uma ou outra
crise como esta, o velho professor gastava os seus
dias a queixar-se de tudo e de todos, a ler os seus
alfarrábios, a apodrecer na cama, como quem estava
à espera da morte, caturrando com o prior e a irmã,
que eram como que os seus enfermeiros. Mas agora sabia
ele perfeitamente que a sua hora estava chegada. Crispiniano
pensava nisso, encomendando-se a Deus, quando o prior
entrou.
- Aqui lhe trago hoje mais um admirador de
Vergílio[23]
e também de Voltaire[24]...
- disse o padre, apresentando-lhe o seu hóspede.
À palavra
Voltaire, sublinhada pelo apresentante, o velho leão,
terror da mocidade, ergueu para Ernesto o busto, sacudindo
a juba, e firmando o cotovelo no travesseiro envolveu-o
num olhar de compaixão e de tédio, percorrendo-o com a
vista desde a cabeça aos pés; e, comparando talvez o
corte simples do seu fraque e a linha despretensiosa das
suas calças modernas com a passada elegância da casaca
direita e do lustroso calção de seda do seu querido
Tolentino, descaiu lentamente sobre o travesseiro com o
sorriso triste dos desenganados. Depois, estendendo-lhe
cortesmente a mão óssea e esburgada[25],
indicou-lhe a cadeira mais próxima.
- Com que então, o senhor admira Vergílio e não desdenha
Voltaire! Melhor fora que se ficasse na admiração
do primeiro, que pelo que toca ao segundo temos por
cá muito melhor onde repousar os olhos. Basta ler
os árcades[26],
desde o Garção[27]
ao Bingre[28].
Mas que querem? Hoje em dia quem não sabe francês
e não lê Voltaire, não é gente...
Crispiniano vincava
intencionalmente o pergaminho da cara[29] de um
glauco[30]
lacustre e imprimia às palavras sarcásticas, o tom lúgubre
de seu profundo desprezo pela França.
O prior, em pé, ao lado
do mestre, aprovava com a cabeça, meneando-a automaticamente.
- Desde que a língua da igreja, a língua da ciência e da gente culta, foi
substituída neste país de pedreiros livres[31]
pelas chocarrices[32]
de Voltaire, já não há mais que francelhos[33]
e peraltas[34]
apostados em escurecer a glória dos Lucenas e dos
Vieiras[35]
como se não tivéramos na própria casa, gigantes para opor aos Hugos, aos Voltaires e aos
Michelets[36].
Que os senhores falam
por aí muito nesses nomes com que enchem a boca e
talvez ignorem que Victor Hugo foi um realista convicto,
antes de ser um republicano das dúzias; que Voltaire,
o republicano, afirmava que antes queria ser devorado
por um leão do que roído por um milhão de ratos e
que o Michelet dos passarinhos... Oh! O Michelet -
não lhes desmanchemos a lenda - é um escritor universal,
mais erudito que o Moisés do Pentateuco[37],
superior ao Cristo e ao Sócrates que nunca escreveram
uma página, maior que Mafoma[38]
que mal teve traças[39]
para iludir alguns árabes. Bastou-lhe a ele, para
a apoteose, o ter escrito a Bíblia da humanidade,
esse catecismo da idéia nova que desbancou Bossuet[40],
meteu num chinelo a Vulgata de S.Jerónimo[41],
eclipsou o Koran[42]
e deixou a perder de vista as criações maravilhosas
da culta Grécia e da esclarecida Roma.
Para trepar ao Capitólio[43]
bastavam-lhe três muletas[44]
- símbolos, alegorias e mitos, aqueles intricados
mitos que tanto custavam a definir a Semler[45],
aos eruditos Ernesti[46],
Bauer[47],
Vegscheider[48],
Vilch e Strauss[49].
E, todavia, o vosso Michelet[50]
não passa de um propinador de veneno!
E com o esforço de um espírito
que já não pode lutar, caiu ofegante sobre o travesseiro,
olhos cerrados e a boca aberta. Ernesto contemplava-o
piedosamente, prevendo uma congestão. Entretanto o
prior estava agora espapado e boquiaberto aos pés
da cama do Martins, pernas encruzadas sob as nádegas,
na posição cómica de um mandarim farto de arroz, a
babar-se de tanta ciência, parecendo dizer-me no seu
perene e beatífico sorriso admirativo: - Não lhe dizia
eu que era um génio?
Depois, notando a imobilidade
do enfermo, foi ajeitar-lhe a cabeça veneranda sobre
a almofada, com paternal carinho limpou-lhe o suor
e desviou-lhe os cabelos da testa, como se fora uma
criança.
O génio repousava do violento esforço.
*
Durante o repouso do mestre,
cujas alvas cãs intensas semelhavam um tufo de musgo
e cuja fisionomia macerada infundia religioso respeito,
Ernesto foi percorrendo com a vista a carunchosa estante
que se aprumava na parede em frente do retrato do
Sr.D.Miguel de Bragança.
Os raios[51]
vergavam ao peso dos clássicos gregos e latinos, perfilados
em longos esquadrões ao lado das obras de moral e
de maços de gazetas, encimados de papeluchos de mostarda
e pacotes de rapé. Eram papéis e livros velhos que
denunciavam as predileções do mestre e percebia-se
pelos registos e fitinhas de seda desbotada, entaladas
nos textos, que tais obras tinham sido muitas vezes
folheadas por Crispiniano. Estava ali o arsenal do
batalhador; com aquelas armas ganhara os louros que
lhe verdejavam na fronte e o alto conceito que dele
fazia o Sr.Prior, único Aristarco[52]
da freguesia.
Enquanto o jornalista
em férias passava revista às lombadas da suculenta
livraria e os últimos raios do Sol de Agosto, atravessando
os vidros empoados, arrancavam cintilações de fogo
à coberta de chita escarlate da cama do mestre, entrava
no aposento, com discretas precauções de enfermeira,
uma velhita de cara redonda e embranquecida com um
pires de marmelada numa das mãos e uma gazeta na outra.
Era Dª.Violante, a irmã do prior. Vinha saber do doente
e trazer-lhe a Nação[53],
chegada pelo correio, mas notando que o génio repousava
tranquilo, desviou-se pé ante pé e veio ter com o
irmão e Ernesto, que também se tinham afastado para
a varanda.
Caía a noite, e os dois,
olhando para o presbitério, que num ponto elevado,
a cavaleiro da povoação, erguia em meio das acácias
verdejantes a sua flecha em cruz, dourada pelo Sol,
conversavam.
- Que lhe pareceu o bicho?
Como Ernesto hesitasse na resposta, Dª.Violante respondeu por ele,
asseverando que naquelas doze léguas em redondo não
havia cabeça como aquela...
- Não imagina, aquilo é poço sem fundo. Se não faz
a asneira de abandonar a carreira eclesiástica, estava
agora bispo sem ninguém lhe valer. Se tem ido para
a universidade, era homenzinho para se medir com uma
dúzia de doutores; velho, como está, venha aí o mais
pintado que em pontos de latim e de história ninguém
deita a barra mais longe. Os discípulos que deu, saíam-se
no exame como papagaios. E isto no tempo em que o
Latim era estudado a valer.
- Mas que mania foi essa de vir sepultar-se na aldeia um gigante de tais
dimensões? - interrogou o alfacinha.
- Caprichos, celebreiras[54]
dos homens grandes - fez o prior encolhendo os ombros.
Quando eu vim paroquiar a freguesia já o encontrei
na escola. Sempre sem família, como hoje, coitado.
Algum dia morre para aí abandonado como os cães. O
que lhe vale sou eu, que passo o meu tempo a ouvi-lo
e a agarrar por aí alguém com quem ele possa desenferrujar
a língua. Um desgraçado é que ele é.
Nas últimas palavras do sacerdote, havia agora uma vibração dolorosa e
comovida.
- Já me disse - inquiriu de novo - que o seu amigo
não tem família e sempre se conservou celibatário.
Isto, porém, não exclui qualquer afeição ou tendência
amorosa...
- Compreendo - replicou o prior - Amores são para os moços e felizes.
Amores, ele? Não falemos nisso, meu amigo. Os seus amores
foram os rapazes, os livros e o rapé. Não é assim,
Violante?
A esta pergunta a velhita de cara redonda e esbranquiçada purpureou-se de súbito
e, sem que se soubesse como nem porquê, deixou cair no chão
o pires da marmelada...
A noite ia desdobrando lentamente o seu véu de neblinas pardacentas pelas
quebradas[55];
os fios louros do Sol poente desprendiam-se das franças
das acácias que imergiam na sombra crepuscular, ao mesmo
tempo que o bondoso prior esfregava as mãos flácidas e
polpudas, murmurando ainda - Que génio! Que génio!
Todavia a perturbação
da irmã do prior não passou despercebida a Ernesto,
em cujo espírito se enlaçava no mesmo pensamento a
imagem da irmã do prior e a do velho pedagogo e a
si mesmo perguntava os secretos motivos desse hipotético
enlace. Adivinhando-lhe o pensamento, o prior chamou-o
de parte para um ângulo da larga varanda e disse-lhe
ao ouvido: - Olhe que o nosso prior de Mirandela,
mas isto só para nós, não era tão rebelde a prosperidades
que se não finasse pela marmelada de minha irmã. Mas
não me atrevo a condená-lo porque o suponho filho
de frade, Deus me perdoe.
Mas na alcova do doente sentia-se agora um rumor inesperado. Crispiniano
acordara, Violante já estava de luz acesa à cabeceira do
enfermo que, tendo-lhe arrancado das mãos a sua querida oração,
acabava de ver confirmada a notícia da morte de
D.Miguel[56].
O estado de Crispiniano era horrível. O prior correu para ele a amarrar-lhe
os braços; mas a convulsão era tremenda. Foi a sua última
luta nesta vida mortal. Uma névoa cobriu-lhe os olhos, um
arranque profundo escancarou-lhe a boca e a cabeça rolou
inanimada na paz final.
E ali, naquela aldeia ignorada, defronte de um indiferente às lágrimas de
Dª.Violante e às lástimas do prior, ali ficava agora
para ser restituído à terra, esse magnífico exemplar do
dia de ontem, grande na sua nudez, respeitável na sua fé
e majestoso no seu ocaso, porque foi precisamente desse
ocaso que ressaltaram, como de um braseiro, as primeiras
faúlhas que iluminaram o dia de hoje.
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