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Bondoso, meigo, insinuante,
sonhador, de olhos vivíssimos e castos, Luís, era
um desses tipos simpáticos que reúnem à beleza plástica,
o prestígio da inteligência. Crianças amoráveis que
as mulheres adoram com paixão e os homens aceitam
com respeito; organizações especiais construídas de
sonhos e de realidades, de aspirações vagas e de alores[9]
generosos, igualmente adaptadas ao maior sacrifício
humano e ao mais pueril dos caprichos femininos. As
suas mãos agora tremiam nas de Juliano, como se estivesse
curtindo uma sezão, e a sua voz dolorida, como as
das crianças doentes, tinha soluços que pungiam. Juliano
não compreendia.
- Vais saber tudo; aquele saimento que viste - explicou Luís
num esforço violento - foi o de Stella. Provavelmente não
sabes quem foi a formosíssima criatura que teve este
nome. Pois fica sabendo que estas seis letras representam
para mim um idílio de risos e uma tragédia de lágrimas.
Ainda bem que vieste, meu amigo; na hora mais terrível da
minha vida, era-me indispensável um homem como tu.
Imagina que vim para esta praia maldita no ano passado, em busca
de repouso e de saúde, e que, em vez do repouso e da saúde,
venho encontrar agora o desespero e a morte!...
- Continua - disse Juliano intrigado e curioso. Ele continuou:
- Para não apodrecer de tédio, nestes ócios forçados
da praia, lia os meus livros, compunha os meus versos,
dormia e passeava por esses areais sem fim, pacato,
feliz, indiferente, sem comoções, sem temores nem
desejos. A vida bucólica da província.
Mas quis a minha má fortuna que, num desses passeios
tranquilos, por uma formosa tarde de Agosto, eu topasse à
beira mar, no ano passado, os mais adoráveis dezoito
anos, encarnados na mais adorável das criaturas - uma
dessas encanações ideais, que os grandes artistas
desesperam de reproduzir, porque são mais do céu que da terra.
Não sei como nem porquê, os nossos olhos encontraram-se num
relance e desde então absortos e cativos nunca mais
deixaram de procurar-se, como se precisassem da mesma luz
para ver e admirar. Amámo-nos desde aquele dia e com tão
entranhada paixão que eu bem percebi, por meu mal, que só
a morte poderia anular tão enraizado amor.
Sentindo-me soçobrar num pélago[10]
de inesperadas e desconhecidas alucinações, tentei
fugir. Tardio e baldado intento. Não se foge ao destino.
Depois vieram as peripécias do estilo - as cartas diárias, os
encontros previamente combinados, os passeios à
beira-mar, todos os incidentes de uma paixão funesta.
Que estranhas fantasias eu sonhei, meu amigo! Que loucura
aquela! Nos livros, no mar imenso, nos prados floridos,
nas conchas da praia, na areia beijada eternamente da
vaga, em tudo se debuxava[11],
refloria e pairava a sua santa imagem de contornos ideais
e puríssimos.
À noite, principalmente, é que a visão gloriosa daquele
delicado ser, feito de auroras, surgia à minha vista
deslumbrada, como a evocação de um anjo radiante na sua
auréola, à noite, quando a não via.
Além, ao pôr-do-sol, por cima das águas dormentes, erguia-se vésper[12]
cintilante e vivaz como um diamante pálido engastado em lápis-lazúli[13].
Era a guarda avançada das falanges da luz. Eu esperava-a
já ansioso e febril, como quem espera a vinda de um
portador de boas novas. Que doidice aquela, Santo Deus!
Uma ilusão dos sentidos levava-me então a relacionar o
brilho deslumbrante daquele astro, que reluzia vivaz no
azul celeste, ainda rubro dos últimos raios solares, com
o meigo olhar de Stella, tão límpido e tão casto, e a
mim mesmo perguntava, extasiado, porque estranho motivo
andava lá tão alto, pairando na imensidade, a imagem de
um ser, que da minha alma fizera a sua morada?
Os amantes são supersticiosos. Aquela pequenina esfera de
luz atraía-me de um modo singular, erguendo-me às altas
regiões, onde ela pairava imóvel, como se quisesse
dizer-me que só lá em cima existe a paz e o
esquecimento...
E tinha razão; aquele saudoso astro, que tantas vezes
devorei com os olhos, que para muitos foi o precursor
de melhores dias, talvez o símbolo de bem fadados
amores, para mim não representará de ora avante mais
que o símbolo da saudade sem esperança. Foi ela a
testemunha irónica do mais tremendo desastre que aos
filhos de homem jamais foi dado experimentar.
Neste momento o moço
poeta, como que envergonhado da própria candura, embebeu
no lenço as lágrimas que lhe enchiam os olhos.
Entretanto
retinia ao longe a campainha da estação. Vinha perto o
comboio ascendente, e pelo silêncio da noite pesada e
brumosa ouvia-se distintamente, como um bramido surdo, o
soluçar das vagas rolando na praia!
- Desculpa - tornou ele metendo o seu braço no meu
e arrastando-me de novo. - Creio que existe na vida
de todos os homens um período fatal de alienação e
inconsciência, donde saímos para a realidade famintos
e rotos, como os náufragos que tudo perderam. O meu
naufrágio levou-me tudo, menos a consciência do desastre.
Antes a loucura, já que seria impossível o esquecimento.
Com os olhos nela, a seguia por toda a parte, andei um ano,
dia a dia, percorrendo a estrada das ilusões e do martírio,
buscando-a, como um cego busca a luz, fantasiando
quimeras, divinizando os aspectos poéticos de tudo quanto
me aviva a sua lembrança, sonâmbulo, inconsciente,
alucinado.
E, todavia, eu não queria confundi-la com essas enganadoras
miragens que me enlevavam a imaginação ardente. Seria
macular as perfeições divinas. Mas recordo-me de que à
luz da formosa estrela da tarde, que primeiro cintila no
firmamento, com estes lábios incendidos e trémulos de
comoção eu lhe jurei por Deus, pelo Oceano, por tudo
quanto eu conhecia de grandioso e solene, que só deixaria
de amá-la, quando essa estrela desaparecesse para sempre
do espaço.
E, todavia, esse bendito
fanal[14]
que eu tantas vezes invoquei, lá está em cima como
dantes; o amor, que lhe jurei a ela, repousa neste
coração escalavrado pela dor, tão vivo e tão ardente
como nos dias felizes que passaram. Ela, porém, é
que fugiu e desapareceu para sempre. Levaram-ma!
Após nova pausa, continuou:
- Se eu não acreditasse na ressurreição dos mortos - crê
no que te digo - o meu último dia seria o de hoje. Não
se aparta a gente, a olhos enxutos, daquela que resume o
nosso presente e o nosso futuro, daquela que faz parte do nosso ser.
E depois que mártir e que santa! Torturaram-na,
esmagaram-na, mataram-na! Se eu não passava de um poeta,
de um ideólogo, de um plebeu ambicioso, que tinha fome de
pão e de pergaminhos! Um tonto, que nem sequer sentia
girar nas veias um glóbulo de sangue azul! Pois ela, a
neta de cem avós ilustres, a herdeira única de uma geração
de fidalgos, podia lá unir os seus destinos históricos
aos meus apelidos anónimos?
Daqui um assombro de contrariedades imprevistas, a resistência
implacável dos seus, a represália intransigente, uma série
de torturas inqualificáveis e monstruosas, que levaram à
sepultura a mais gentil, a mais casta, a mais dedicada das
mulheres. Um horror indizível.
Quando há menos de dois meses ela chegou de novo à praia, e de
novo os seus brilhantes olhos descansaram nos meus, pensei
desde logo que tudo morrera nela, e não me enganei.
Stella vinha mortalmente ferida. Foi a ultima vez que a
vi. Morreu ontem e enterraram-na hoje!
A sua última carta é de
há três dias; sei-a de cor, à força de a reler:
«É hoje o dia do meu aniversário. Vesti-me de luto
porque me sinto morrer; mas, como entrevissem um capricho
meu em coisa tão insignificante, mascararam-me de
galas. Não resisti. Para quê? Os mortos deixam-se
amortalhar.»
«Meu Deus! Custa efectivamente morrer na flor dos anos, quando
a gente é amada por um homem como tu és. Tenho coragem
para o transe final; mas falece-me para deixar-te. Para
que hei-de ocultar esta fraqueza? Por ti, que não por
mim, invade-me o arrependimento de ter chegado a amar-te
tanto. De que nos serviu este amor, esta ilusão fugaz, se
tão cedo nos haviam de separar para sempre?»
«És novo e generoso, vive tu ao menos; eu desvio-me do caminho
para te não empecer[15]
o trânsito. Talvez que para ti se abra o futuro ridente[16]
no dia em que ele de todo para mim se fecha.»
«Lembrei-me
muita vez da clausura. Entraria afoita, porque entre as
quatro paredes de uma cela, sem um raio de Sol a doirar
aquelas sombrias abóbadas, viveria para ti unicamente, ou
morreria mais depressa. Agora vejo que essa lembrança não
passava de uma risonha quimera perfeitamente vã e
inteiramente inútil. Morta já eu estou. Vê para que nos
serviu tanta confiança no futuro!»
E depois, voltado para
Juliano, terrível e hostil:
- Já vês que não parto, fujo!
Ao mesmo tempo acendiam-se as luzes da gare, a campainha da
estação dava o último sinal e ao longe, na direcção
oposta, prolongava-se, como um grito nos ares, o silvo agudo da locomotiva que chegava.
Momentos depois trocavam-se as últimas palavras da despedida, com
o último aperto de mão, e o comboio ascendente que
levava o infeliz imergia rápido na escuridão da noite, como num túnel.
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