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Conto completo extraído do livro "FIGURAS DE GESSO"
Histórias contemporâneas - 4ª Edição (on-line) |
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Belisária |
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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011 |
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I
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Conheci
uma fidalgona que era um fantasma, uma cópia de Canídia,
bruxa de Horácio[1]
- disse o padre José Agostinho de Macedo - com dois
olhos, que eram ermitões velhos, cada um em sua cela,
bem retirados do mundo; um nariz que parecia uma pirâmide
inclinada, como frade em gloria patri[2];
uma boca em guerra civil com ambas as orelhas, ameaçando-as,
pela proximidade, de uma dentada em cada uma; com
duas mãos que pareciam rosetas de esporas antigas.
Era assim Belisária, com uma ligeira diferença, apenas: como todas as
infelizes, que ensanguentam com os pés descalços as
areias ásperas dos cabedelos[3]
da vida, Belisária não inflava, como a abantesma[4]
do frade turbulento, soberbias de fidalgona; verme,
arrastava obscuramente a miserável existência dos
deserdados e, semelhante aos cães sem dono, alimentava-se
das migalhas esquecidas ao opulento e de pontapés
intercalados de injúrias.
Quem era Belisária? Onde,
quando e de quem nascera? Como ninguém se dá ao trabalho
de investigar a genealogia dos infusórios[5]
microscópicos e inúteis, ninguém poderia dizê-lo.
A descendência anónima das tristes ervas e das águas
correntes, tão celebrada na trova popular, é numerosa.
Era mulher feita pelo tempo dos franceses - asseveravam pessoas, que
vagamente se recordavam de a ter visto nas serras,
esmolando à porta das catraias[6], devorando os sobejos que
generosamente lhe atiravam ao regaço as famílias
refugiadas no monte. Mas tal lembrança não passava de
uma recordação vaga, incerta e longínqua.
Provavelmente não conhecera pai nem mãe e logo ao nascer foi abandonada
como um trambolho à beira de alguma estrada deserta.
Depois, foi arrastada para junto da porta das igrejas,
onde estendeu a mão à caridade dos fiéis, dormiu sob as
árvores ao relento e à chuva, abrigou-se dos vendavais
na toca dos velhos troncos ou na cabana dos pastores, teve
por cama a terra húmida e por lençol a neve dos
invernos, vestiu-se de farrapos abandonados ao enxurdeiro[7], comeu o pão duro dos almocreves sob
o telheiro das albergarias e padeceu, enfim, todos os
transes da vida nómada, desde a investida das feras nos
pinheirais sombrios até ao assalto dos homens nos atalhos desertos.
Deveria ter sido bem lúgubre a odisseia das suas aventuras, a julgar pelos
vestígios da desgraça que lhe andavam estampados na
face. Tudo morrera nela, juventude, beleza, alegria, tudo.
Nos olhos, ermitões velhos, cada um em sua cela, bem retirados do mundo -
nenhum lume de contentamento fugaz; nos lábios, onde
arrefecera o riso dos anos alegres, a gelidez dos mártires
obscuros; a pele, engelhada, baça e descolorida; os
cabelos, raros, espigados, ásperos como espigas de linho;
e no sítio da boca descaída e atormentada, uma sombra
apenas, uma sombra negra.
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II
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Foi neste miserável estado que a velha Belisária chegou à aldeia, onde
veio a morrer, abordada à sua muleta nodosa, trôpega,
quase nua, por uma noite de Inverno. Os cães vinham atrás
dela arremetendo descaroavelmente[8]
e a chuva caía do céu a cântaros.
Viera de terra em terra, de porta em porta, esmolando e mascando preces, e,
quando naquela terra procurava um vão de escada, o vento
assobiava irado, as bátegas de água sacudiam as árvores
e os telhados, as ruas eram lamacentas e escuras, nenhuma
luz através dos vidros e a aldeia dormia.
Mas os cães denunciaram-na e um pobre camponês, que se abrigava da chuva
sob a verga de um portal, reparando naquela infeliz, que
se debatia em luta desigual contra a matilha minaz,
salvou-a do transe e, condoidamente, arrastou-a generoso
para um velho pardieiro, onde algumas paveias de palha lhe
serviram de leito naquela noite.
- Deus lho pague - murmurou Belisária, deixando cair nas mãos calosas do
seu benfeitor, uma lágrima de gratidão.
Desde essa noite nunca mais a forasteira saiu a peregrinar. Já não tinha
pernas para longas caminhadas, nem coragem para prosseguir
a antiga vida ambulante. De dia, esmolava, gemendo a sua lástima
e rezando no seu rosário; mas, ao cair da noite, recolhia
ao covil, trancava a porta, acendia o lume sobre uma laje,
ao canto do pardieiro em ruínas e, antes de se aninhar na
palha fofa, pegava das contas e rezava. Mas rezava de um
modo singular, como todos os desdentados - papeando os
padre-nossos. A voz monótona, arrastada, de uma só nota,
prolongava-se no antro, como um sussurro de colmeia;
semelhava um diálogo, em voz baixa, travado entre pessoas
discretas. Era uma ilusão completa, e foi esta ilusão, que a perdeu.
Principiou de correr na povoação que Belisária, por altas horas da noite,
quando a aldeia jazia silenciosa e dormente, concedia
entrevistas a um extraordinário personagem que ninguém
pudera lobrigar, mas que todos sabiam maléfico. Era, fora
de dúvida, que o hóspede de Belisária tinha a
particularidade de entrar no palheiro, sem que pudesse ser
visto. Mas por onde? Talvez pelas frinchas do telhado,
talvez pelo buraco da fechadura. Evidentemente era o
mafarrico e, por consequência, a velhota não passava de
uma desavergonhada bruxa...
Houve quem os ouvisse dizer mal dos padres e da religião, e quem, ao romper
da alva, notasse que pelo buraco da fechadura saía um
vaporzinho azulado e ténue que tresandava a enxofre. Esta
revelação aclarou o escuro caso e desde que a lógica
popular se apoderou do facto, a situação da forasteira
estava definida. Belisária foi oficialmente averbada de
feiticeira. Já não havia que duvidar. Incrível parecia
agora que os papalvos não tivessem reconhecido, há mais
tempo, uma coisa tão evidente. Entretanto, factos bem visíveis
acabaram de desenganar algum incrédulo mais contumaz.
A troco de pequenas
gratificações, Belisária fazia curas miraculosas, desde
a espinhela caída até ao desfalecimento de alma, nenhuma
doença, por mais rebelde ou entranhada, resistia à acção
poderosa da sua medicina. Com duas palavras mágicas e uma
solução de qualquer droga, curava as mulheres anémicas
de fundas olheiras roxas, desfazia a ténia que devora os
intestinos, punha fora do corpo as sezões rebeldes à
quina[9],
atalhava canseiras e azias, neutralizava quebrantos e maus
olhados, e extirpava com igual facilidade os vermes das
crianças e os tumores dos adultos.
Mas a proficiência da curandeira não ficava por aqui; sabia rezas para
achar o perdido, predizia o futuro escabroso e lia as
sinas com tal desembaraço e prontidão que mataria de
inveja todas as ciganas da Boémia e a própria pitonisa
do Endor[10].
E tudo isto ela operava quase de graça, generosissimamente, mediante o
escasso dispêndio das ervas medicinais que fornecia a sua
farmacopeia barata, sim, mas abundantíssima de raízes de
plantas desconhecidas, folhas de papoila, flores de giesta
e de rosmano, pernadas de alecrim e de losna[11], que pejavam os buracos das paredes e
cobriam prateleiras toscas, onde jaziam frascos de vários
tamanhos e feitios com unguentos e líquidos pintalgados.
Como era de ver, a notícia de tantas virtudes e de tantas drogas correu
mundo, e já principiava a dar nas vistas e a acender
invejas a numerosa clientela que, das aldeias vizinhas, se
aglomerava todos os dias à porta de Belisária a pedir saúde.
Uns arrastavam-se a pé, ao longo das estradas, na ânsia
de um remédio que os restituísse à vida e à saúde
antiga; outros vinham a cavalo, cambaleando como ébrios,
devorados de febre; outros enfim, eram trazidos em braços
de parentes consternados que os depositavam à porta de
Belisária, enfileirados, à espera de vez. Belisária não
tinha mãos a medir e uma imprevista colheita de presentes
e mimos principiava a cair-lhe do céu, finalmente compadecido.
Mas a fortuna, que sempre lhe fora adversa, seria agora de uma incoerência
pasmosa, se tanta ventura houvesse de durar. E não durou,
porquanto dois inimigos poderosos tramavam na sombra a ruína
da curandeira - o mestre barbeiro e o Sr.Cura, dois
nababos de ignorância e de inveja que juraram exterminar
aquela formidável concorrente, que prejudicava as tisanas
de um e os exorcismos do outro.
Pouco tempo depois, Belisária foi denunciada ao regedor; deu-se participação
em juízo e, a pitonisa, a despeito dos clamores e
protestos da multidão agradecida, e sem que lhe valessem
as relações de amizade com o príncipe das trevas, foi
arrastada ao cárcere, onde expiou com a máxima resignação
o nefando crime de haver prejudicado duas indústrias
protegidas por lei - a da lanceta[12] e
a do hissope[13].
Durante os dois meses de prisão, que foram longos e penosos, os créditos
de Belisária desceram espantosamente, como era de prever.
O barbeiro por um lado e o cura pelo outro deitaram abaixo
o ídolo da véspera, desacreditaram-lhe os elixires, de
forma que ao sair da cadeia a desgraçada já não
encontrou a clientela. Os frascos, apreendidos pela justiça,
tinham desaparecido, e as ervas medicinais arderam num
auto de fé. Deste modo a roubaram, destruindo-lhe o ganha-pão.
Velhos fregueses que a procuravam em certas luas para lhes erguer a
espinhela, recorriam agora aos exorcismos do Sr.Cura, e
quem padecia de maleitas e outros achaques, dirigia-se de
preferência ao barbeiro, que logo se responsabilizava pela cura.
A nigromante[14] estava
positivamente, irremediavelmente, perdida. Só lhe restava
uma de duas: morrer ou emigrar.
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III
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Para maior desgraça tinha cegado na cadeia e, agora, errava à toa e às
apalpadelas pelas ruas. Os garotos atiravam-lhe pedradas e
chamavam-na bruxa. Às vezes resvalava e caindo nas pedras
ficava sem sentidos. Ninguém lhe estendia a mão, ninguém
acudia a levantá-la, porque o seu contacto dava calafrios
e punha sustos nos mais decididos.
Não admirava. Ela vingara-se da crudelíssima pena que sofrera,
concitando[15]
a cólera de Satanás sobre a população culpada. Morriam
crianças às dúzias e o flagelo não respeitava sexo nem
idade. Pessoa em quem ela pusesse o intento, era pessoa
condenada. Vingança horrível.
Citavam-se factos conhecidos. Um latagão, valente como as armas e capaz de
segurar um touro pelas hastes, foi um dia fixado por ela.
Não foi preciso mais nada, o infeliz desandou dali a
cambalear e a empalidecer, de forma que duas horas depois
era cadáver!
Uma criancinha de peito, robusta e sadia, apareceu de manhã morta no berço,
chupada e sem pinga de sangue. Foram ver e encontraram-lhe
enterrado no sítio do coração uma palha da enxerga. Foi
pelo tubozinho dessa palha que a maldita bebera o sangue
do inocente!
Mais. Nas sextas-feiras, que são os dias em que o príncipe chavelhudo
passa revista aos exércitos malditos, podiam bater à
vontade na porta de Belisária, ainda que fosse com um maço
rodeiro[16]
que a excomungada não ouvia. Como havia de ouvir, se a
essas horas, por alta noite, ela andava por longas terras,
transformada em borboleta, voando por cima de toda a folha
em procura de almas para tentar, ou transpunha os mares
tenebrosos até chegar ao país dos Indos, onde Lusbel[17]
a esperava, de forcado em punho, sentado na sua poltrona
de chamas rutilantes!
Nesses dias era vê-la derreada, como se a tivesse moído com um saco de
areia, os olhos pisados, estampados na face em traços de
fogo os vestígios dos cinco dedos de Belzebu[18].
É por isso que o rapazio a corria à pedra[19]
e ninguém acudia a levantá-la do chão, quando a muleta
resvalava e a cega caía desamparada na rua.
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IV
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Chegou, porém, um sábado frigidíssimo de Janeiro e Belisária não veio,
como era seu antigo costume, sentar-se de manhã no
portal, a receber a réstia do Sol.
De noite caíra uma extraordinária e densa camada de neve, os tectos, as
ruas, os campos e as devesas[20]
apareceram de manhã inteiramente cobertas de extensos lençóis
de uma alvura deslumbrante. Das franças[21]
das árvores desciam como pingentes facetados e translúcidos,
magníficas estalactites de cristal, e um vento agudo,
coado pelas serras geladas, penetrava dolorosamente nas
carnes como fios de navalha de barba.
Era alto dia e a porta da nigromante ainda fechada. Este facto começava a
impressionar. Os que passavam, casualmente, paravam
comentando. Depois chegavam outros, inquirindo do
sucedido. Ninguém sabia explicar. Entretanto a multidão
crescia, fazendo cerco ao pardieiro. Que sucederia?
A curiosidade é implacável. Ouvem-se alvitres
sediciosos[22]:
- Trepem ao telhado.
- Arrombem a porta.
A este tempo chegava o Sr.Cura, altivo de ventre, inquirindo, dominando a
plebe com o seu longo olhar protector. Depois de
informado, conferenciou com o barbeiro, discretamente, e
disse para um dos presentes:
- Vá, aquela porta quer-se
dentro[23].
Os circunstantes desviaram-se respeitosos e um valentão
arremangado[24]
e cabeludo dirigiu-se resolutamente para a porta fechada.
Houve um minuto de silêncio. O latagão fincou os pés na
calçada, arrimou o ombro à porta, soltou um arranco e
disse:
- Lá vai!
O portal rangeu, estalou nos gonzos e foi cair dentro à distância. Novo
silêncio. Ninguém se mexeu.
Então o Sr.Cura transpôs o umbral, seguido pelo mestre barbeiro, e ambos
pararam ao mesmo tempo, fitando o que quer que fosse no chão.
Belisária jazia estarrecida a um canto, a boca escancarada, os olhos
abertos, os andrajos revoltos e os dedos de ambas as mãos
crispados na garganta, donde escorriam fios de sangue.
O barbeiro então, solenemente, deu dois passos, debruçou-se, ergueu à
altura do peito um braço do cadáver e picou-o com a
lanceta. Nem pinga de sangue. Fígaro[25]
abanou a cabeça indiferente e, deixando cair o braço,
limpou tranquilamente o ferro à manga da jaqueta. Depois,
voltado para a multidão atónita, disse estas palavras
sentenciosas:
- Esta já não torna a enfeitiçar ninguém.
E enquanto a plebe escandalizada comentava com
chufas[26]
aquela pouca vergonha da bruxa, que se deixara morrer sem
confissão, o Sr.Cura pacificava os ânimos e, de olhos
alçados, afiançava categoricamente que não deixaria
enterrar em sagrado, o corpo daquela bácora...
E cumpriu a palavra. Ao cair da noite o corpo de Belisária foi conduzido,
em meio de archotes, a um olival próximo, e aí ficou
enterrado ao sopé de uma silveira[27],
como se fora o cadáver de um cão.
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