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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011 |
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I
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O
fidalgo estava deveras impaciente naquele
momento. Tudo lhe correra mal durante o dia e agora,
que tinha necessidade absoluta de receber a correspondência
da noite, o carteiro não chegava!
Com os olhos, ora no relógio da parede, que marca dez horas, ora na porta
velada a meio pelo reposteiro de reps[1],
o viúvo, com todo o sangue dos trinta anos, alto e loiro,
passeia descompassadamente em todas as direções da sala,
descrevendo linhas tortuosas e incongruentes, nervoso, de
mãos nos bolsos, rígido na sobrecasaca preta de rigoroso
luto.
E então, que noite
abominável, que interminável noite, passada ali, na ausência
de pessoas amigas, no isolamento absoluto da vida, entre
as quatro paredes velhas dum casarão tumular, pavoroso
como as criptas medievais, povoado de fantasmas e teias de
aranha!
O castelo era, com efeito, a imagem lúgubre do isolamento e do tédio.
Pendurado como um ninho de milhafres nas ásperas escarpas
do monte que se despenha em socalcos até ao abismo, jazia
para ali, desde tempos remotos, solitário como sentinela
perdida; e agora, na solidão da noite borrascosa, batido
pelo vendaval e fustigado pelas chuvas, ululava em meio
das matas rumorosas, como um lobo faminto.
E, contudo, fora nesse desmantelado solar de seus avós, povoado de lendas
sinistras e de retratos de antigos guerreiros, que um mês
antes lhe morrera a mulher, a mimosa flor-de-lis baixada
ao túmulo na Primavera da vida.
Que saudade! Nos ecos dos vastos corredores sombrios e intermináveis, gemem
ainda, como um cicio flébil[2],
os últimos ais dessa encantadora mulher, que fora sua
esposa, e nos panos alvadios do arrás[3]
desbotado, paira o seu espectro, arrastando a longa
mortalha pelas paredes.
Em frente do pai, cujos passos rangem monótonos no pavimento sem tapete,
está a linda filha do seu amor, de joelhos sobre a velha
poltrona de sola[4],
de espaldar cravejado, debruçada sobre a mesa, com os
bracitos estendidos: uma criança loira, carnadura de
leite e rosa, em cujas veias túmidas[5]
pulula a seiva dos cinco anos.
Sobre o cartão cetim, a mão caprichosa da criança lança traços e
figuras extravagantes, para a direita e para a esquerda,
seguindo com os olhos os movimentos do lápis e os
rabiscos sem arte.
A luz opaca do candeeiro de bronze, velada pelo tapa-luz multicor,
projetando uma nódoa branca circular sobre os papéis
dispersos pela secretária, põe nos cabelos finos e
loiros da pequena, fulgurações de espigas de oiro
batidas do Sol; o antigo relógio, pregado na parede, soluça
ininterruptamente o seu tic-tac monótono e fastiento; e
pela janela aberta sobre o jardim, que desce até ao rio,
entra em golfadas súbitas o frio húmido da noite e o
choro plangente das ramarias sonoras.
Podia lá viver assim! - medita o viúvo, parando de repente a olhar para a
filha. - Tudo conspirava contra ele, desde os amigos mais
íntimos, que lhe exploraram a generosidade e o
abandonaram na decadência, à porta da miséria, até ao
próprio Deus implacável, que lhe arrebatara a esposa,
sem lhe dar a ele a coragem suficiente para resistir à
catástrofe.
Ainda no berço, viu sair de casa a mãe, aquela santa mulher, amortalhada
no seu caixão ladeado de tochas; poucos anos depois, ia o
pai a juntar-se com ela na mesma cova; e agora a esposa do
seu amor, a única paixão ardente da sua vida, a mãe da
sua filha!
Era de mais! Outro nas suas circunstâncias teria dado um tiro no ouvido...
E logo os seus passos deslizavam precípites[6],
os seus movimentos eram sacudidos e incongruentes como os
do epiléptico, e as unhas enterravam-se-lhe sem dor nas
palmas recurvadas.
Se era uma expiação o que lhe sucedia, onde estava o crime? Onde estava
essa enorme culpa, que andava expiando naquele fadário
interminável de desastres desde o património desbaratado
para salvar amigos arruinados até à viuvez intempestiva
e imerecida?
Enfim - rematava, dolorosamente - agora é que eu chego a compreender a
frase do príncipe da Dinamarca[7],
abeirando-se do espectro do pai: «A vida não vale mais
que um alfinete![8]»
E tornando a parar no meio da sala, com ambas as mãos premindo as fontes da
cabeça, como se uma lâmina candente[9]
lhe atravessasse o cérebro, bradou fitando a parede donde
pendia o retrato da esposa alegre no seu vestuário de
noiva: Oh, horrible! Oh, horrible! Most horrible![10]
Então a pequenita estremeceu na velha cadeira de espaldar, largou o lápis,
e voltando o busto gracioso e sereno, duma candidez
imperturbável, perguntou, estendendo os braços e abrindo
os olhitos espantados:
- A mamã? Quando volta a mamã?...
Mas ele não respondeu. Estava mudo, a olhar para ela, como um idiota
chumbado ao chão, quando oscilou o reposteiro e um criado
lhe entregou a correspondência da noite.
Então o pai aproximou-se da filha, tomou-a nos braços, suspendeu-a à
altura do peito, e com as faces iluminadas pelo fulgor
juvenil dos olhos dela, esteve assim muito tempo a fitá-la,
a beber aquela candura, a sorver aquela imagem bendita,
como se quisesse introduzir no seu organismo envenenado e
decomposto a vitalidade daquela pureza angelical e suave.
Depois levou-a à porta,
pô-la no chão brandamente, desviou o reposteiro e,
num esforço, que o trémulo da voz atraiçoava:
- Vai, minha filha. Toma o teu chá e brinca. A tua mãe há-de vir logo...
E dizendo, viu partir
a criança muito alegre e buliçosa a voar pelo corredor
fora, com a presteza duma borboleta, agitando no ar
o cartão dos rabiscos.
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