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Conto completo extraído do livro "FIGURAS DE GESSO"
Histórias contemporâneas - 4ª Edição (on-line) |
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O
Milagre |
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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011 |
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I
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O caso foi este. Nunca mulher
alguma adorou tão rendidamente um homem como Dª.Josefina do Coração de Jesus adorava o marido que Deus lhe dera.
Os longes[1]
saudosos da infância, que por tantos anos costumam
reflorir no coração das pessoas sensíveis; a afeição
maternal das duas tias, que a educaram depois que lhe
morreu a mãe; os pequenos nadas da vida, que alvorotam[2] o
espírito das mulheres novas e produzem à superfície das
existências tranquilas as crispações dos lagos feridos
da brisa; tudo se dissipara como espirais de fumo no
ambiente que ela agora respirava, perante a vivíssima luz
de um Sol ardente e glorioso. Esse foco luminoso que de
todo a envolvia e cegava era Frederico, o homem feliz e
superior, a cujos destinos prendera o seu destino, na hora
abençoada em que a Providência lhe apresentou a sua
imagem, como um enlevo, e os seus braços, de forte como
um amparo.
Seguia-o em sonhos, como a
sombra vai atrás do Sol; confundia-o na sua imaginação
fantasiosa, com as mais belas criações que povoam a
corte celestial e, à falta de padrão suficientemente
perfeito para aferir por ele a estatura moral do mais
honesto dos maridos, divinizava-o como um fetiche.
Frederico, verdade seja, era
efectivamente merecedor do culto que a mulher lhe
tributava. Homem de talento e de coragem, fidalgo no porte
aprumado e no carácter irrepreensivelmente correcto,
impunha-se à admiração e ao respeito pela severidade
dos actos; mas, a bondade proverbial da sua alma benfazeja
era a nota mais simpática da sua índole.
Durante dez anos de
ininterrupta paz doméstica e de convívio matrimonial, o
austero advogado nunca tivera para com a sua santa mulher
um gesto de enfado, nem uma palavra desabrida que
denunciasse propósito de a magoar.
Josefina bem compreendia
estas delicadezas de sentimento e consigo as recordava a
todas as horas, chegando por vezes a sensibilizar-se até
aos extremos de chorar lágrimas de ternura e de
reconhecimento.
Porque Frederico era para
ela, pobre mulher sem pai nem mãe, um ente superior que
reunia aos afectos do esposo apaixonado, as virtudes do
protector magnânimo, desses protectores desinteressados e
raros que tudo sacrificam pelos entes confiados à sua
guarda.
Chefe de família, a sua voz
possuía por igual as fortes vibrações metálicas do
comando e os cicios[3]
meigos do arrulho[4].
Amorável e enérgico, dispunha, como os Amadises
medievais[5],
das duas prendas necessárias ao homem, que deseja
conquistar o respeito e o amor.
Fora
do templo doméstico, o Dr.Frederico tinha também a sua
reputação solidamente estabelecida. Desempenhando
escrupulosamente os ofícios da sua profissão de advogado
honesto que nunca defendeu o crime e sempre esteve ao lado
dos oprimimos, ouvido com religioso acatamento nos
tribunais, nas salas e nas assembleias políticas,
Frederico saboreava satisfeito essa legítima
superioridade prestigiosa que faz o orgulho das mulheres
que nos amam.
Era
por tudo isto que Dª.Josefina se deixava enlevar em
santos orgulhos, quando recolhida no seu quarto, a sós
com a sua consciência e Deus, beijava e rebeijava o
retrato do ente querido, e limpando os olhos, turvados
pelo mais suave pranto da sua alma, se comparava às tímidas
violetas que vivem obscuras na raiz das grandes árvores
seculares, nutrindo-se da seiva que elas lhes emprestam,
cobrindo-se com as sombras amigas que elas projectam e
bebendo os fios do Sol que, por entre as espessas
ramarias, descem ao chão ignorado, onde elas arrastam a
existência parasitária. Ele, o forte, o glorioso, era a
árvore protectora; e ela, a fraca, a obscura, era a
violeta protegida.
O seu desejo, quando ele
regressava a casa, depois dos trabalhos forenses,
coberto de suor e de glória, grave e solene como um
conquistador antigo, era arrojar-se de joelhos aos
seus pés, enlaçar os seus braços nervosos nas pernas
do ídolo que a protegia e dizer-lhe num turbilhão
de monossílabos afectuosos alguma frase, que traduzisse
a sua loucura por ele, a sua extraordinária dedicação
por aquele ente incomparável que a dominava sem querer
e, sem que o suspeitasse, a envolvia na púrpura da
sua glória.
Mas era tão infeliz a boa
Josefina que nunca acertava de encontrar palavras no
dicionário da sua alma, suficientemente expressivas para
lhe comunicar os transportes, as comoções, os
arrebatamentos extraordinários e indizíveis que sentia
pelo seu homem.
Ele vinha de fora, com os braços
abertos para ela e o sorriso nos lábios trémulos, e ela,
muda e passiva, abrindo também os braços e correndo para
ele, caía-lhe no peito em cruz a chorar sufocada de
alegria.
Era assim que viviam, havia
dez anos, Frederico e Josefina no mais sereno idílio
nunca ensombrado pela névoa de um desgosto.
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II
Disse um moralista que as
coisas do mundo são como a Lua, que nunca permanece da
mesma maneira, antes para cada dia tem sua feição. Tinha
razão o filósofo. Uma carta anónima, que, demais a
mais, tinha a particularidade rara de contar a verdade,
comunicou a Josefina que o seu marido incomparável tomara
pelo caminho de todos os incomparáveis, e fora direito
como um fuso parar a casa de Margarida. Queria dizer -
Frederico resolvera tomar amante.
A vítima amarfanhou o papel
nos dedos crispados, mas não acreditou o anónimo. Podia
lá ser uma desgraça tamanha! O seu homem não era como
os outros. Tal denúncia era uma calúnia com que os
inimigos da sua casa e os invejosos da sua felicidade
pretendiam feri-la. Quem era Margarida?
Mas a carta apresentava o
facto como negócio sabido de toda a gente; indicava o
nome e o lugar da traição e até particularizava as
horas da entrevista, das dez à meia-noite.
Efectivamente Frederico
saía para o Grémio às 8 horas, depois de jantar, e
só recolhia agora à meia noite. Seria verdade o que
dizia a carta? Oh! Seria o cúmulo da desgraça, e a
gente não se conforma facilmente com os males que
se receiam.
Mas o espinho da dúvida
enterrara-se-lhe no coração como um estigma, e todo o
seu corpo tremia como se um grande perigo a ameaçasse.
A sua ideia primeira foi
guardar a carta e mostrá-la ao marido quando ele
recolhesse a casa. Mas para quê? Se fosse verdade o que
lhe diziam, a apresentação da carta seria, um vexame; se
fosse falso, que lucrava ela em desgostar o seu homem?
Rasgou nervosamente o papel
em tiras miudinhas e arrojou os fragmentos para longe de
si.
Mas o espinho da dúvida
enterrado no coração, esse, lá ficou a doer e a
sangrar, até que factos posteriores vieram provar-lhe que
o seu ninho matrimonial, aparentemente afofado de
frouxéis[6],
estava realmente desfeito. Nos olhos de Frederico outra
imagem, que não era a de Josefina, se fixara indelével.
Amores novos expulsaram do ninho os antigos; não havia já
que duvidar. Não o dizia uma carta anónima, diziam-no
todas as pessoas das relações de Josefina. Oh! O coração
traído nunca se queixa sem motivo.
Frederico principiou a
recolher por altas horas da noite, pé ante pé, como um
ladrão; aparentava uma tranquilidade que realmente não
tinha; percebia-se que fazia violência sobre si mesmo
para ajustar à cara a máscara da alegria; jantava muito
à pressa e não receava, como dantes, sair de casa por
noites borrascosas, porque os amigos o esperavam no Grémio
para as partidas do whist[7]
ou do voltarete[8]...
Ao
sair abraçava muito a mulher e beijava-a longamente,
sofregamente, como quem estava a indemnizá-la ou a
fazer-lhe uma restituição. Precauções que comprometem.
Josefina compreendia tudo,
mas como fora educada por senhoras tementes a Deus que
transplantavam para o matrimónio de hoje a filosofia dos
antigos casamentos que se baseavam na dependência e na
sujeição da mulher, calava-se resignada, embora
reconhecesse que a andavam roubando.
Para ela já não havia que
duvidar, o castelo das suas ilusões pacientemente
fabricado no decurso de dez anos, tão altamente posto na
eminência das coisas felizes, aonde o salpico da
lamacenta inveja nunca poderia chegar, desabava
deploravelmente, caindo a prumo, desamparado e desfeito,
nos fundos abismos de um desengano imprevisto.
E contudo, Josefina, ainda
agora amava como dantes o seu Frederico, chegando por
vezes a encontrar nos tesouros inverosímeis da sua
paradisíaca bondade, motivos para iludir a sua desgraça
e subterfúgios para desculpar o ingrato. Se o próprio
Sol, o mais brilhante luzeiro do firmamento, tem manchas,
quem havia de estranhar que o Sol do seu amor tivesse sido
também empanado pela sombra de uma nódoa?
Que, a bem dizer, aquilo que
o seu marido estava praticando, não era positivamente uma
nódoa, era apenas um rasgão no contrato matrimonial. Ao
cabo de tantos anos de fidelidade impecável, um desvario
momentâneo desculpava-se. Havia naquele género, casos de
mais tremenda responsabilidade, como seria o divórcio e a
mancebia no lar doméstico. Quem é que neste mundo de
pecadores se pode gloriar de perfeito? Escorrega o pé aos
mais firmes e a cabeça melhormente organizada desvaira,
quando a tentação a invade.
Oh! A tentação! Se nestes
deslumbramentos da loucura humana existe responsabilidade,
a culpa é menos dos homens transviados do que das
mulheres que os salteiam no caminho. Os homens são como
as borboletas; sabem que vão morrer, mas vão para a luz.
É Belzebu quem os cega.
Na cândida filosofia da
esposa de Frederico, vasto arsenal de ignoradas virtudes,
sobejavam raciocínios como este: O marido fugia-lhe para
outra mulher? É porque a outra dispunha de seduções
irresistíveis? É porque Satanás concedeu a essa mulher
feliz, encantos e feitiços que embebedam como filtros.
Não conhecia a sua rival nem
se recordava de a ter visto, mas estava certa em como essa
mulher seria um modelo de candura e de beleza. O seu
marido não era homem que se deixasse cair na lama dos
alcouces[9],
nos braços de qualquer mundana pertencente à categoria
das mulheres vulgares que se vendem baratas, porque se
avaliam em pouco. Oh! Desses nada receava, porque tais braços
não eram liames[10],
capazes de prender um homem como o seu Frederico.
Alguém a informara
de que Margarida era uma boémia doutorada em todos
os vícios, como todas as fêmeas anónimas suas congéneres,
vagabundas e parasitas, que vendem o corpo por uma
ceia e mudam de amantes como quem muda de camisa.
Mas era invenção de solheiro[11],
esta patranha em que não podia crer. O seu marido
podia lá ter descido tão baixo! Seria uma degradação
imprópria de um homem daquela têmpera e daquela condição
social.
Fosse como fosse, o caso é
que estava burlada, e era preciso tomar uma resolução,
porque o espinho que lhe enterraram no coração sangrava
e doía cada vez mais.
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III
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O seu projecto era simples e
prático. Quando o marido estivesse no tribunal, ela
entraria em casa de Margarida e, lançando-se-lhe aos pés,
suplicante, de mãos postas, lavada em lágrimas,
dir-lhe-ia que se compadecesse da sua desgraça; que o
matrimónio era uma situação horrível sem a afeição
dos maridos; que não podia resistir àquele martírio;
que lhe deixasse em paz o seu Frederico; que fugisse,
enfim, daquela terra, porque longe da vista longe do coração.
Que bem sabia a enormidade do sacrifício que vinha
implorar, mas que nunca pessoa alguma chegou à
bem-aventurança eterna senão pelo caminho dos grandes
sacrifícios.
Josefina tinha decorado,
à força de repeti-las, as palavras comoventes que
devia pronunciar aos pés da sua rival. Para alguma
coisa havia de servir a natural retórica de todas
as mulheres. Mas, e se estes meios suasórios[12]
não forem suficientes? Nesse caso - deliberava convicta
- recorrerei ao último argumento. Deus me perdoará,
se peco, mas assim é preciso. As mulheres daquela
espécie não resistem às fulgurações do ouro, porque
é precisamente a necessidade quem as lança no caminho
da desonra.
Se resistir às minhas súplicas,
despejar-lhe-ei no regaço mãos cheias de ouro, dinheiro,
jóias, tudo quanto ela quiser em troca da minha
felicidade. Margarida não há-de resistir a esta prova,
porque as mulheres, quando se abaixam à infâmia de
roubar os maridos das outras, é porque realmente têm
fome.
Chegara finalmente a esta
conclusão, que era um repouso tranquilo, depois das
enormes lutas em que por muitas noites se debatera o seu
espírito atribulado.
Mas a esposa de Frederico,
mulher tão temente a Deus e absolutamente escrava dos
conselhos da religião, não podia levar por diante este
plano tão pacientemente arquitectado, sem a prévia
aprovação do seu director espiritual, um velhito calvo e
mesureiro[13],
egresso[14]
franciscano de reconhecida virtude, em cujos ouvidos
castos tinha por hábito despejar, pelo menos uma vez por
semana, o saco das suas venialidades e pecadilhos.
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IV
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Vinha aclarando a manhã, a
igreja estava aberta, e as primeiras badaladas do sino
anunciavam a primeira missa. Era só atravessar a rua e
entrar. Vestiu-se, portanto à pressa e saiu. O velhito
calvo e mesureiro esperava-a, no recanto da igreja, sob o
coro, agasalhado na sua capa ao pé do confessionário,
imerso na penumbra.
- Bem-vinda, minha filha.
A penitente, ajoelhada na
esteira, sobre a qual descansavam também as botas
grosseiras do egresso, soluçava a sua angústia. A Virgem
ainda sofrera mais, quando lhe pregaram o filho na cruz
entre dois ladrões; bem sabia isso, mas a Virgem era a mãe
de Deus, e recebia directamente do céu a coragem precisa
para o martírio, enquanto ela, frágil mulher desamparada
e grande pecadora, não tinha ninguém por si...
- Não diga isso, que é ofender a Deus. Confie nos
tesouros da Providência divina que nunca desamparou
os aflitos, que invocam o nome de Maria Santíssima.
Então, coragem!
Josefina, reanimada pelo bálsamo
daquelas santas palavras do ungido do Senhor, expôs a sua
desgraça e confessou o seu projecto. As palavras eram
vozes estranguladas por soluços aflitivos.
Mas o egresso, que parecia
desaparecer no fundo do confessionário, como a volatilização
de uma múmia exposta ao ar, obtemperava[15],
pausado e grave, estendendo o lenço vermelho sobre os
joelhos trémulos do reumatismo, que tal não fizesse. Era
uma imprudência penetrar no antro das mulheres perdidas,
dessas criaturas abandonadas da graça. Aviltaria a sua
dignidade de senhora, sem recuperar as santas alegrias de
esposa. E depois, que desgosto para Frederico, quando
viesse a ter conhecimento daquele passo!
O escândalo é o maior dos
pecados, e foi pelo escândalo que o pecado entrou no
mundo. Vexar seu marido, para quê?
- Isso nunca, - atalhava a
penitente - antes a morte que envergonhá-lo a ele, que é
tão generoso e tão meu amigo, apesar de tudo...
- Pois bem, - prosseguia a
voz dormente do egresso - tranquilize-se, Dª.Josefina,
que tudo se conseguirá com o auxílio d'Aquela, que viu
morrer seu filho na cruz. Quem deu vista aos cegos, fala
aos mudos, movimento aos paralíticos e ressuscitou Lázaro,
ainda está onde sempre esteve, apesar da impiedade do século,
no qual por nossa desgraça vivemos e padecemos. A ovelha
desgarrada voltará ao redil, e a luz que resplandeceu aos
olhos de Saulo[16],
na estrada de Damasco, brilhará em breves dias no caminho
de Frederico. Tenha fé, minha filha, no valimento da Mãe
de Deus, perante a qual se curvam os serafins, os arcanjos
e as potestades[17].
A fé é o caminho da glória. Deus nada mais quer de nós
senão um coração contricto e humilhado. Basta de
pranto, ponha o pensamento na Mãe dos aflitos, peça-lhe
com fervor o seu patrocínio e a porta da felicidade,
cerrada pelo vício, será aberta de par em par pela mão
da graça divina. Pulsate, et aperietur vobis[18].
Cuido que não será preciso recorrer por ora aos
exorcismos, com que a Santa Igreja costuma expulsar do
corpo das criaturas o demónio íncubo[19],
mas, se tanto for necessário... deixe-o à minha conta, Dª.Josefina.
Apegue-se com a Virgem, ofereça-lhe o que for do seu
agrado e verá se o milagre se faz ou não.
Josefina ergueu-se então
mais aliviada, como quem já vê luzir uma esperança na
treva da sua desventura e, atravessando a nave sonoramente
lúgubre, com o seu livro de orações na mão, a face
afogueada e o olhar caído, foi prostrar-se desfalecida
nos degraus do altar da Mãe de Deus.
Fora ali, naquele mesmo
sitio, em frente daquela santa imagem que ela ajoelhara
havia dez anos para receber das mãos do ministro de Deus
as bênçãos nupciais. Que dia o de então, e que dia o
de hoje!
A Virgem lá estava no mesmo
altar, com os braços ainda abertos para todos, imóvel na
sua peanha, erecta no seu trono de luzes e de flores,
olhando fixamente para o mesmo ponto vago e incerto, como
quem medita nos destinos tenebrosos dos pecadores.
Ela é que já não era a
mesma. Então viera ali a transbordar de júbilos, como se
entrasse no paraíso e agora vinha batida das tempestades
da vida, arrojada como um náufrago e inconsolável como a
viúva de Nahim[20].
Então agradecia e agora suplicava. Que dia então e que
dia o de hoje! A noite precedente fora horrível. Sozinha
no seu quarto, abandonada de todos, devorada de desgostos,
padecera martírios de incomparável tortura. Terrores
vagos, que não eram remorsos, mas tinham a forma de
espectros, vinham para ela ameaçadores e fantásticos. A
alcova parecia-lhe uma cripta mortuária; andavam no ar
larvas ensanguentadas, e no seu cérebro confuso e aberto
a todas as dores passavam relâmpagos que a abrasavam. Que
noite, santo Deus!
Frederico estava fora de casa
desde o anoitecer. Bem sabia onde estava e era o peso
dessa certeza quem a esmagava. Tentara por vezes conciliar
o sono e esquecer-se, mas como, se as suas pálpebras
ardiam como brasas e o seu corpo tremia como o de um epiléptico?
Depois, lá pela madrugada,
quando as primeiras flechas de luz atravessavam a alcova,
como fios de oiro ou reflexos de uma lágrima, chegava ele
como costumava, pé ante pé, muito cauteloso, deslizando
no corredor como um ladrão que passa, muito cosido à
parede para não ser pressentido. Horrível!
Mas era então que ela podia
sacudir de si o grande peso que a esmagava e só então é
que os relâmpagos de fogo deixavam de cruzar na sua cabeça.
Havia cinco meses que durava
este martírio, que se repetiam com a fatalidade de um
destino que se cumpre, as cenas desta lúgubre tragédia e
nem uma queixa, nem uma recriminação ao ingrato!
- Para quê? - dissera o
confessor - seria vexá-lo, seria feri-lo nos seus
melindres de homem e nos seus segredos de amante. Seria
provocar um escândalo, e pelo escândalo entrou o pecado
no mundo...
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V
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Entretanto aproximava-se do
altar rutilante e majestoso dentro da sua dalmática[21]
bordada a ouro e seda o velhito calvo e mesureiro,
segurando o cálice com ambas as mãos na altura do peito,
beiços colados e espremidos, olhar humilde posto no chão,
arrastando os passos miudinhos e trôpegos no lajedo
sonoro do templo.
As mulheres, espalhadas pelo
templo, murmurando orações e comunicando à nave o
sussurro das colmeias, desviavam-se para o deixar passar,
aconchegando as saias, curvadas, a bater nos peitos.
Ele subia lento os degraus do
altar, como quem sobe a corte celestial, onde há luzes
que nunca se apagam e flores que nunca murcham, e Dª.Josefina
do Coração de Jesus com os olhos fitos naquele santo
velhinho tão venerando e tão chegado a Deus, sentia que
lhe gorgolhava nas veias a transfusão misteriosa de um bálsamo
desconhecido.
A confissão fizera-lhe bem e
toda a substância do seu ser parecia resolver-se agora
numa ternura inefável que a desoprimia.
Durante o sacrifício, os
olhos de Josefina nem um momento se apartaram da santa Mãe
de Deus, resplandecente no seu trono de luzes. Fascinada
por aquela imobilidade por aqueles olhos celestes, de um
azul profundo como os abismos, estática e muda, como se
estivesse pairando na zona intangível e misteriosa, onde
vivem as almas crentes já saciadas e tranquilas, a esposa
de Frederico sentia-se fora da vida normal e transitária,
percorrendo mundos infinitos de ventura e de prazer nunca
sentidos em vida sua.
Era uma ascensão gloriosa e
inesperada o que lhe sucedia. Entrava no céu, sem ter
padecido os transes da agonia. A Virgem pegara-lhe pela mão,
envolvera-a no manto azul recamado de estrelas, e ela fora
subindo, subindo, leve como um floco, transparente como o
ar, incoercível, vaga, translúcida, a despegar-se da matéria
de que era feita, a resolver-se na essência subtil dos
espíritos de um modo tão doce que estava acordada, e
parecia dormir, de uma forma tão suave e graciosa que
vogava entre o céu e a terra, tocando com asas de
querubim, ora no trono deslumbrante do Altíssimo, sem se
queimar, ora na face do orbe[22],
sem macular a virginal candura do seu corpo.
Somente acordou quando lhe
lançaram ao pescoço a toalha branca da comunhão. O
sacerdote levantava nesse momento o cálice de ouro com
ambas as mãos alongadas para o céu e murmurava palavras
ininteligíveis e misteriosas, num sussurro místico.
Foi neste momento augusto e
solene, entre a elevação do cálice e da hóstia, quando
à voz do sacerdote, o Rei dos reis e o Senhor dos
senhores desce à terra a humanar-se nas sagradas espécies,
que Dª.Josefina, num relance mental que envolvia toda a
tragédia da sua existência, fez o voto aconselhado pelo
director espiritual da sua consciência:
«Virgem santíssima,
restituí a paz à minha alma e o sossego ao meu lar, e
fazei de conta que é vosso tudo quanto possuo. Juro
trazer-vos, em paga de tanto benefício, todas as minhas jóias,
todas, desde o anel nupcial, presente de meu marido, até
ao rico e sumptuoso colar de brilhantes, prenda querida de
minha mãe. Tudo é vosso, mas restituí-me a felicidade,
que perdi.»
Depois caiu num recolhimento
profundo, as pálpebras cerradas, busto pendente e as mãos
cruzadas no peito, como se ali acabasse a vida.
Que tempo estivera assim, não poderia dizê-lo; mas
recordava-se de que recebera a comunhão das mãos piedosas
do egresso, e de que nesse mesmo momento a Virgem
descera do seu altar e a levara nos braços para muito
longe dali, para essas regiões desconhecidas, onde
floresce perpetuamente a esperança.
Acordada agora, urgia
recolher a casa. Que diria Frederico? Realmente
demorara-se mais do que desejava. Lançou um derradeiro
olhar à Virgem, e saiu precipitadamente.
Quando entrou em casa,
o marido esperava-a já, passeando impacientemente;
de um extremo a outro da sala de jantar; e - circunstância
digna de reparo - não foi para ela de braços abertos,
como costumava.
E pela primeira vez, ao cabo
de dez anos de felicíssimo idílio matrimonial, o marido
de Josefina teve um gesto de enfado para sua mulher.
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VI
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A noite precedente também
fora horrorosa para Frederico. Prevenido no Grémio
de que a certa hora da noite Margarida recebia a visita
de um estranho, quis verificar por si a veracidade
da informação. Indagou e certificou-se. Mas, como
era prudente, não quis fazer escândalo e deixou o
seu lugar ao outro. O facto, porém, divulgou-se logo
e durante toda a noite não se falou de outra coisa
no Grémio.
Fora burlado miseravelmente
por aquela rameira, e nem sequer podia queixar-se a ninguém,
porque o ridículo é a única situação que um homem de
sangue quente não tolera. Preferiu calar a sua vergonha,
e resignar-se. Mas era castigo demais. Ao sair de casa de
Margarida, a sua cabeça ardia devorada pela febre, e os
beiços tremiam-lhe convulsionados pela raiva.
Por onde andou toda a noite,
depois daquela cena? Que ruas percorrera até à
madrugada? Não o sabia. Errou como um bêbedo pelos
campos, esbarrou em todas as esquinas, encostou-se aos
muros como os vagabundos, mordeu charutos sem conta, e
quando se estendeu no leito, exausto e febril, era manhã
clara.
Que situação e que
vergonha!
Nesse dia não foi ao
tribunal, mandou parte de doente. O juiz, o delegado, os
escrivães, os colegas, os clientes, os oficiais de diligências,
o auditório, todos compreenderiam aquela participação
de doença. A vergonha também é doença. Frederico
estava realmente incomodado.
Como se desfazia num momento
a ilusão do seu prestígio! - meditava, cruzando em
todas as direções a sala de jantar - Podia morrer
num duelo, cuspido por um cavalo, esmagado debaixo
de um túnel, afogado no mar, queimado num incêndio,
varado por tiro, todas as mortes empreendia e todos
os desastres achava lógicos, menos aquele. Ainda bem
que Josefina ignorava tudo. Boníssima criatura! -
rematava comovido.
- Estás doente, Frederico? -
interrogou Josefina.
- Talvez - foi a sua resposta, sentando-se à mesa
sem vontade de almoçar. Mas, desde aquele dia, as
noitadas do Grémio acabaram para ele. Já não havia
remissas[23]
a levantar de madrugada, nem partidas de whist
que o chamassem. As noites estavam ásperas e nada
havia mais reparador do que um belo sono de algumas
horas, ao cabo de um longo dia de trabalhos forenses.
Tinha tanto que fazer no seu escritório que nem lhe
sobejavam ócios para um curto passeio.
Josefina olhava maravilhada
para aquela súbita metamorfose. Parecia-lhe inverosímil
que tão rapidamente se tivesse operado o milagre.
Mas não havia que duvidar. A Mãe de Deus acudira-lhe.
A felicidade ausente, a felicidade antiga, regressava
a casa como o filho pródigo da parábola. A imagem
da outra fugira do pensamento de Frederico e a sua
voltava a ocupar o seu antigo lugar no coração do
incomparável esposo que Deus lhe dera. Tudo acabara
lá fora, tudo; quem poderia duvidá-lo?
A princípio, a fisionomia do
advogado era melancólica e ríspida. Mal humorado e sóbrio
de palavra tinha estremecimentos súbitos e hostis.
Felizmente essa fase durou pouco e a antiga jovialidade
assomou próspera e auspiciosa, como nos primeiros dias de
uma convalescença.
Até a lembrança da cómica
aventura em casa de Margarida ia desaparecendo com
o perpassar dos dias quando Josefina, em maré de expansão,
enlaçando-se-lhe um dia ao pescoço, consoante o costume
antigo, exclamou radiante de ventura:
- Agora é que eu sou a mulher mais feliz do mundo.
Frederico estremeceu, mas fingiu não compreender.
Ela saberia? - Mas se o soube e nada me disse, então
é porque minha mulher é a mais cândida e a mais santa
das mulheres.
E dando-lhe na testa o mais
afectuoso dos beijos, um desses longos beijos ciciados que
produzem eco demorado nos mais recônditos escaninhos da
alma, pegou do chapéu e saiu alegre como dantes,
trincando a ponta do charuto.
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VII
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Apenas ele transpôs a porta,
Josefina entrou no quarto precipitadamente, abriu uma das
gavetas do toucador marchetado, tirou de dentro um pequeno
cofre de sândalo encrustado de oiro, lançou aos ombros a
capa de veludo e seda, compôs o véu defronte do espelho
e saiu pressurosa.
A porta de igreja estava
aberta e por detrás do guarda-vento passeava, de um para
outro lado, arrastando o passo miudinho e trôpego, o
velhito mesureiro e calvo, sumido no amplo capote grosso
de camelão[24].
O Sol, atravessando os vidros
coloridos das altas janelas laterais, inundava agora de
luz, os altares, as naves, as galerias e o coro, como se o
templo de Deus se houvera iluminado, de repente e de propósito,
para a celebração de algumas núpcias celestes.
Josefina, ao chegar, beijou
comovida as mãos de egresso que a levantavam do chão,
onde ela ajoelhara, e caminhou para o altar da Virgem,
que lá estava no seu trono rutilante, com os seus
bonitos olhos de vidro despedindo chamas de amor divino,
de braços eternamente abertos, donde pendia o rico
rosário de padre-nossos de rubis, excelsa no seu manto
de seda azul celeste que ondulava salpicado de estrelas.
- Então, milha filha, não
lhe dizia eu que à Mãe de Deus nada é impossível?
Josefina, ao lado do egresso
que a envolvia de alto a baixo num olhar curioso,
depositava sobre a pedra da ara o cofre de sândalo e
entregava ao confessor uma pequenina chave de oiro.
O padre abriu lentamente
o cofre para autenticar, em presença da interessada,
os valores recebidos, e com os seus magros dedos de
avaro, semelhando garras, ia extraindo as diferentes
jóias, uma a uma, com volúpia.
- Mas isto, minha filha, é uma riqueza!
Josefina, enlevada
na santa imagem que fizera o milagre da sua felicidade,
não ouvia.
- E ele? - tornou o egresso, sondando discretamente.
- Nada sabe e nada lhe direi. Seria vexá-lo inutilmente.
Se ele é tão generoso e tão bom!
- Amém! - murmurou a voz débil e sussurrante do confessor.
Minutos depois o frade
despedia-se de Josefina à porta da igreja e, regressando
apressadamente à sacristia com o precioso cofre apertado
entre as mãos, murmurava irónico e atónito:
- Sou padre à quarenta e cinco anos, mas é esta a primeira vez que vejo
pagar um milagre pelo seu justo valor...
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