JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Estas páginas, escritas pelo Visconde de Sanches de Frias, um mês antes do falecimento de José Simões Dias, encontram-se insertas no seu livro "Peninsulares". 

[Transcrição integral de Vivaldo Quaresma]

DR. SIMÕES DIAS
Bosquejo da sua vida e obras

A nossa interferência no exame da obra capital do autor das Peninsulares não teria necessidade de ser definida, se uma parte, pequena embora, da confradaria literária da actualidade não soubesse perfeitamente das nossas relações pessoais; e por isso, no ímpeto de um pecadilho, a que todos, por culpa de Adão e Eva, somos mais ou menos atreitos, não pudesse malsinar intenções de probidade, na expectativa de um panegírico descomunal.

É verdade que os hóspedes, que formigam no convívio de muito boa gente, os próprios íntimos, são, às vezes, os que melhor mofam das iguarias, com que os banquetearam.

Ao demasiado escrúpulo de qualquer purista biógrafo do nosso mútuo conhecimento, afirmamos peremptoriamente que não vimos representar, nenhum dos dois papéis, de maléfico ou de panegirista; e sim, e unicamente, reivindicar para a crítica e para a história uma individualidade, cujos atributos de plena revestidura andam, a nosso ver, mal cerzidos e piormente localizados, aqui e acolá, mau grado a perícia de tantos e tão ilustres críticos, que dela se têm ocupado.

E porque o fazemos? Por cortesania amiga? Por impulso de simples camaradagem?

Vamos dizê-lo.

Obedecendo a uma ordem de estudos histórico-literários e de biografia, a que, de há muito, e a intervalos, nos dedicamos, foi nosso intento contemplar com eles, em primeira plana, o esquecido tugúrio dos nossos maiores e os conterrâneos memoráveis, vivos ou mortos, de breve e não alongado circuito.

Nesse propósito, demos a lume, em 1896, a memória histórica e crítica Pombeiro da Beira, cuja 2ª edição muito acrescida com largas informações, pesquisas e trabalhos de dois anos consecutivos vai sair do prelo brevemente; ao fim disso, ou quase ao mesmo tempo, escrevíamos um drama histórico, cujo protagonista é o nosso compatrício, de Avô, Braz Garcia de Mascarenhas, o patriota glorioso, autor do Víriato Trágico; e tratávamos depois, num estudo prévio, que juntaremos ao drama, de dizer o que ainda não foi dito àcerca da sua vida e obras, procedendo a numerosas averiguações de genealogia e história local e pessoal.

Em seguida e enquanto esperávamos subsídios de pontos diferentes, aonde nos temos dirigido por escrito, metíamos ombros ao terceiro trabalho, onde avultava outro conterrâneo nosso, vivo, que respirara, como Braz Garcia e como nós, o acre perfume dos estevais beirões, no voejar sadio e irrequieto da sua tenra e modesta infância.

Quando nos acercámos de Simões Dias, que dele se tratava, a solicitar poucos mas determinados esclarecimentos, que não podíamos haver de outrem, já nos rodeavam subsídios de larga monta, raciocínios formulados de há muito e escritura até, que, no termo da nossa investigação, nos deixaria fartas ensanchas.

Daí um interrogatório, a que forçoso nos foi responder; uma oferenda de trabalho quase completo, que era natural fazer-se, e a modesta perplexidade da aceitação; para nós sobremaneira honorífica, por se tratar da obra suma e definitiva de quem tem direitos de cidade e menagem especial nos arraiais das letras portuguesas.

Eis tudo.

Se o ligeiro perfil do homem nos sair descolorido, por vezes, será porque o vulto bracejante do escritor nos ofusca os traços e esconde as tintas.

Artista e arte, em geral oferecem frequentemente contrastes de refinada minúcia, no meio dos quais é dificil que uma paleta não vacile.

- Sejamos simples e seremos doutos - disse não nos lembra quem.

O melindre da nossa posição e o desempenho da nossa tarefa podem justificar essas palavras, e convertê-las em conceituoso aforismo.

***

Uma pequena aldeia solitária, estendendo na vertente de uma serra apinada, ladeira acima, a sua casaria rústica, coberta de lousas ardosianas, quase primitiva, enquadrando-se em socalcos verdejantes, que se enfileiram igualmente noutra serra fronteira, e banhando os pés numa ribeira sussurrante, salpicada de azenhas e marginada de árvores frutíferas e cultura campesina, aonde a primavera envia rouxinóis em barda - não é somenos estância para berço de um poeta.

O doutor José Simões Dias nasceu, a 5 de Fevereiro de 1844, numa aldeia destas, cujo nome lhe basta, a pequena Benfeita, situada acima de Côja, ao lado esquerdo do rio Alva, no concelho de Arganil, e possuidora, além de uma capela octógona, a meia encosta lateral e duas diferentes a toda a altura, de uma igreja, situada à entrada, cujo orago, Santa Cecília, também pode ser advogada dos bons poetas, que músicos devem considerar-se de privilegiado quilate.

Foram seus pais os snrs. António Simões Dias e sua mulher D. Maria do Rosário Gonçalves, proprietários, que ainda vivem.

Aos 10 anos, em 1854, concluía os estudos primários na escola do mestre régio da localidade, padre António Pedro Nunes Teixeira, um velho liberal, que sofrera por isso as torturas do exílio e das prisões de Almeida; vulto espadaúdo, claro, aprumado, que um dia chegámos a ver, cercado das netas, porque ao enviuvar é que se ordenara.

Empunhando a palmatória do oficio e experimentando frequentemente a elasticidade das orelhas dos discípulos, António Pedro era menos mau atrofiador de intelectos, mas, no meio dos seus rotineiros processos, lobrigara a intelectualidade precoce e absorvedora do pequeno aluno, que o fazia pasmar, e a que, em breve tempo, consagrou largos vaticínios.

Nesse dito ano o rapazinho, em conselho de família e sob a opinião sentenciosa do professor, foi mandado estudar latim para o distrito de Leiria com outro mestre régio, João Cabral de Brlto, em Pedrógão Grande, onde era pároco seu tio, o reverendo Albino Simões Dias Cardoso, amoroso carácter, homem boníssimo, a quem o educando deveu quente agasalho, e provada dedicação, de que se lembra agradecido.

O apartamento da aideia nativa, deitada, a preguiçosa, nas alfombras da encosta, que o pequeno peercorrera a despedir-se de toda a gente, não se fez sem lágrimas, como era próprio da idade e sensibilidade de quem tanto sentia.

Na pátria de Miguel Leitão de Andrade esteve três anos o novel estudante a suportar as lições, não de uma personagem como seria o douto autor da Miscelânea, mas sim do mestre Cabral, pedagogo ferrenho e ignorantaço, que ele felizmente abandonava ao fim desse tempo, recolhendo-se ao ninho seu paterno, para se transferir a Coimbra, onde iria cursar preparatórios.

A ida pitoresca da Benfeita para a Raiva, num carro de bois, a sua entrada na barca mondegana, que, com as pipas de vinho, de que se achava atulhada, ia levá-lo, rio abaixo, à terra de Sá de Miranda, e o seu deslumbramento em face da poética cidade, para ele toda rutilante de louçanias e esplendores babilónicos, que avultavam ao espirito impressionável do estudantinho provinciano, como maravilhas nunca sonhadas, durante as leituras fantásticas da Princesa Malgalona e da Imperatriz Porcina, sobre que derramou lágrimas de admiração - tudo isso, tão nítido como fotografia indelével, não se riscou até hoje das lembranças infantis de Simões Dias, que saltava no cais de Coimbra, comovido, titubeante, com 13 anos de idade, doze vinténs no bôlso, em prata, dádiva generosa de sua madrinha, e a alma virgem, angelicamente bucólica, alanceada de dúvidas e sustos.

A sua entrada e demora em casa de um parente, conhecido latinista naquela cidade, são por demais pungentes e ingratas, para que delas nos ocupemos.

A sua vida foi sempre eivada de rara parcimónia e sucessivas dificuldades.

De todos os preparatórios, necessários à matrícula posterior, fez exames em 1857 e 1858; faltando-lhe porém a idade, e cedendo passivamente às instâncias e vontade dos parentes, que o desejavam clérigo, foi inscrever-se no seminário no curso teológico, que, tão galhardamente como acontecera com os estudos preparatórios, terminava, ao fim de três anos, em 1861, isto é, aos 17 de idade.

Entretanto, facilmente se pode calcular que tortura não seria para aquele espírito florejante a aridez de tais conhecimentos!

Apoucando o seu mérito, mas indicando os processos do ensino então usados, Simões Dias fez-nos, ainda não há muito, no descrever do protagonista de um conto seu, como recordação característica da época, o seguinte retrato:

«Os mestres orçavam geralmente pelos que tinha encontrado nas primeiras letras e no latim; os processos os mesmos; e, quando me supunha um sábio em todas as matérias percorridas, encontrei-me com o cérebro vazio e a inteligência exausta. O mundo continuava a ser para mim um vasto mar tenebroso e desconhecido.

«Para o vencer, carecia de lutar, mas faleciam-me todos os meios de resistência. As aulas não tinham posto nas minhas mãos nenhum desses instrumentos poderosos, que servem para defender a dignidade pessoal e para grangear o pão de cada dia.

«Sentia-me com ânsias para o trabalho útil, mas não sabia trabalhar. Os métodos da disciplina mental e as torturas da memória não tinham feito de mim o que vulgarmente se chama um cretino, mas tinham com certeza produzido um inútil. Discorria como um papagaio, mas não raciocinava melhor que um selvagem por domesticar.»

A amargura cáustica, que ressumbra destas linhas, pinta, a justos e breves traços, toda a sequidão, do ensino oficial.

Apesar de tudo, porém, a frequência de estudos áridos e monótonos, quase incompatveis com aquéle cérebro juvenil, onde borbulhavam todas as idealidades, cor-de-rosa, de uma alma cismadora e inexperiente, não chegou, durante todo esse tempo, a empanar, por instantes sequer, a luz de uma espontânea e vivíssima inspiração, que se desatava em floridas primícias, que a todos pareciam demasiado precoces.

São de anos tão verdes os primeiros versos correctos de Simões Dias; e daí data a sua colaboração nos periódicos literários de Coimbra - Tira-teimas, Prelúdios Literários, Fósforo, Hinos e Flores, Harpa, Átila, Academia, que fundou com Emídio Navarro e Lopes Praça, Crisálida, que fundou também com Teófilo Braga e Duarte de Vasconcelos, e finalmente n'A Folha, de João Penha.

Pode afoitamente dizer-se que, num período de 9 anos, de 1861 a 1870, não houve em Coimbra publicação literária, que não tivesse a sua colaboração.

Concluído o curso do seminárlo naquele ano, 1861, como dissemos, Simões Dias, ainda à espera de outra idade, ia matricular-se nos estudos universitários.

Recrudesceram aqui verdadeiros amargores de uma vida laboriosa para o moço poeta, que, ao mesmo tempo que forcejava por manter completa nas aulas a reputação, tão invejavelmellte conquistada, via-se forçado a leccionar numerosas classes, dentro e fora de sua casa, para ganhar o pão, sustentar a sua independência e dedicar-se, com o fervor do seu estro sugestivo aos predilectos estudos literários, sua suprema aspiração.

Com efeito, mercê das tendências inatas, vivazes, irresistíveis do seu espírito criador, dois anos mais tarde, aos 19 de idade, em 1863, publicava em Coimbra a colecção  lírica do Mundo Interior; em 1864, o poemeto Sol à Sombra; em 1867, a 2ª edição do Mundo Interior; e finalmente, em 1868, o livro de contos Coroa de Amores.

Todas as previsões dos arúspices, devotados à preconização dos seus altos destinos intelectuais, tinham ultrapassado as raias prescritas.

A imprensa da época registava com aplauso vibrante as estreias do moço poeta, prometendo-lhe vasto futuro.

Mendes Leal, logo ao ler dos primeiros versos, mandava-lhe o seu retrato com esta notável e ridente dedicatória: «A uma primavera que se inflora com o nome de Simões Dias - um estio, que declina, com o nome de Mendes Leal.»

Todos os magnates das letras, os que então faziam e desfaziam reputações, vieram ao chamamento dos louvores, que se apregoavam, e exaltaram o mérito, que lhes dava causa.

Castilho aplaudia-o com alma, publicamente e em correspondência particular; Camilo, como escreve no Cancioneiro Alegre, conhecendo poucos poetas e gostando de pouquíssimos, destinava aos cantares do novel trovador, o pequeno raio das estantes, consagrado aos bons; Pinheiro Chagas, analisando no Panorama as canções populares do recém-vindo às fraldas virentes do Parnaso, chamava-lhe o primeiro guitarrista peninsular!

O talentoso estudante ia portanto terminar os seus trabalhos universitários, tão discordes da sua compleição, sob os melhores auspícios, já senhor de um nome laureado; o vate recebia a sua sagração por mãos dos melhores patriarcas da seita; e o escritor ia entrar na pugna, onde em brever conquistaria as suas esporas de cavaleiro.

***

No ano da sua última publicação literária, em Julho, de 1868, tendo alcançado durante todo o curso universitário, as mais honrosas classificações, Simões Dias concluia a sua formatura; e era ardentemente solicitado pelos seus professores para que se doutorasse, e consentisse em fazer parte do corpo docente da universidade.

Impelido porém pela aura de uma liberdade, que lhe sorria ao longe, pelos próprios encómios dos seus admiradores, por estímulos vários, que lhe tumultuavam no ânimo assimilador e pelos sorrisos estonteadores da sua musa irrequieta - preferiu concorrer a uma cadeira de portugues, francês, latim, economia rural e administração pública, criada para a cidade de Elvas, por lei de 27 de Junho de 1866.

Apesar do grande número de concorrentes, as suas provas foram tão brilhantes, que o faziam preferir e nomear professor vitalício, por decreto de 30 de Novembro de 1868, isto é, quatro meses depois da sua formatura.

Além das causas, que apontamos, o nosso dever de cronista rigoroso obriga-nos a registar que Simões Dias se apartava também e especialmente dos sinceirais do Mondego, para seguir enamorado as doces peripécias de uns amores castos, santificados, de formosura rara, que, ainda mal para o seu futuro, se lhe sumiriam em breve no túmulo.

As obrigações do seu cargo, como os estudos anteriores, não o inibiram do cultivo literário, e concorreram até para que, pela primeira vez, experimentasse as suas armas de polemista, batalhando nas ardentes pugnas, que então se feriram contra a Nação, o Bem Público e outras folhas reaccionárias, que lhe não perdoavam o desvio para fora dos arraiais teológicos.

O campo da batalha era a Democracia, d'Elvas, onde colaborava com o reverendo Henrique de Andrade, tão modesto como erudito, seu companheiro e devotado admirador, a quem deve uma das mais calorosas biografias.

A sua estada em Elvas assinalou-se especialmente pela publicação do poema herói-cómico A Hóstia de Oiro, saído dos prelos da Democracia, em 1869, e pela 1ª edição das Peninsulares - canções meridionais - impressas na mesma tipografia, em 1870.

Caso singular do destino!

Ao respirar a mesma atmosfera, que tinha envolvido a figura irónica do doutór António Diniz da Cruz e Silva, um século antes, o amoroso trovador, o cantor lírico das canções meridionais, comungava em espírito com o autor do Hyssope, e satirizava personagens do seu conhecimento na Hóstia de Oiro, escrita à mesa da redacção da Democracia e pensada na própria casa, onde poetara Cruz e Silva!

Esse poema era uma nova característica de aptidões, que ninguém lhe supunha, e que a superstição poderia atribuir a filtro maravilhoso, que por ali estadeasse, desprendido, havia tanto, do alto espírito, que produziu o Hyssope.

Em Agosto do sobredito 1870, Simões Dias deliberava transferir a sua residênda para Lisboa, onde obtivera, em concurso, um modesto emprego na secretaria da Justiça, exactamente quando o município de Elvas se reunia para o louvar como professor, aumentando-lhe o ordenado, e rogar-lhe que não saísse dali.

No período, consagrado a Elvas, devemos também mencionar o aparecimento do volume Espanha Moderna e os factos principais, a que deu causa.

Simões Dias, pelo conhecimento, que tinha dos escritores espanhóis, alguns dos quais lhe aplaudiam o nome, compusera esse livro, revista crítica e biográfica dos poetas, oradores, eruditos, historiadores e artistas contemporâneos da nação vizinha.

Esta obra pô-lo em comunicação directa com os principais escritores de Espanha, com cuja amizade se tem honrado; valeu-lhe um encomiástico artigo na importante folha de Canovas a Ibéria, onde se mencionam e celebram os serviços feitos à literatura espanhola pelo escritor português; e deu-lhe a honra de receber, na sua casa de Elvas, em 1870, das mãos do então ministro Montero Rios a comenda de Izabel a Católica, com que a regência de Serrano quis galardoar esses serviços.

A comunhão confraternal de Simões Dias com os escritores espanhóis promanara das traduções, que alguns deles haviam feito dos seus versos e dos louvores, com que o saudara a imprensa espanhola, logo em seguida à publicação.

Enquanto distintos poetas como Ventura de Aguilera, Luiz Vidart e Blanco assinavam essas traduções, notabilidades como Victor Balaguer, o sábio académico autor da História de los Trovadores, Emilio Castelar, Romero Ortiz, Nunes de Arce, Montero Rios, o recente e coagido negociador da triste paz hispano-americana, e outros publicavam na imprensa mais distinta artigos laudatórios e calorosas felicitações.

* * *

A estada de Simões Dias em Lisboa foi passageira, durando apenas até Abril de 1871, ano em que dava à estampa as Ruínas, poemetos ainda impressos em Elvas, e data em que era encarregado pelo governo de ir reger no liceu de Viseu a cadeira de oratória, poética e literatura, sendo provido na propriedade desta última disciplina em 1880, e desempenhando já o cargo de secretário do mesmo liceu, para que fora escolhido, dois anos antes, por decreto de 21 de Fevereiro de 1878.

A curta demora, porém, na capital, não inibiu o festejado poeta de frequentar os célebres saraus literários, onde o venerando Castilho, cercado da fina flôr da aristocracia do talento e do saber dessa época brilhante, fazia da sua casa um areópago de ciência e letras, como nunca mais tornou a haver em Lisboa, onde os conventículos posteriores de invejas e seitas produziram a desunião subsequente.

As tão procuradas enciclopédias literárias desses tempos áureos dão a medida da corte numerosa de escritores, que se acercavam do maior sabedor e melhor purista da língua portuguesa.

Uma dessas afamadas reuniões, a pedido de Fernandez de los Rios, celebrou-se no palácio da embaixada espanhola, à rua das Chagas, onde ele tratava de conquistar prosélitos, entre os melhores políticos e homens de letras, para os seus fanatismos ibéricos.

Silva Tullio ia ler uma obra do mestre, nacionalizador inimitável de estranhos monumentos literários, a tradução do Fausto, em sarau familiar de gala, entremeado de ceia, crítica, doces, licores e música, serão que se prolongou até à madrugada. Simões Dias, que recebeu finezas especiais do diplomata espanhol, ainda hoje se lembra dessa noite memorável.

A permanência em Viseu compreende um dos períodos mais afanosos e notáveis, se não o mais afanoso, do viver de Simões Dias, tantas e tão diversas ramificações tomou ele.

Um ano depois da sua chegada criava família, matrimoniando-se em Setembro de 1872, enlace, de que proveio uma filha, a Exmª. Snrª D. Judith de Menezes Simões Dias, casada com seu primo, o novel facultativo Snr. Carlos Simões Dias de Figueiredo, de quem tem successão.

Amigo particular do falecido bispo de Viseu, D. António Alves Martins, lançou-se, abertamente e a breve trecho, na defensa dos princípios daquele estadista; e tais aptidões desenvolveu que lhe conquistaram, desde logo, um dos primeiros lugares da política distrital.

Os sinceros amigos das letras é que certamente não mandaram o seu cartão de visita à empolgadora inebriante de quase todos os talentos literários do nosso país.

Apesar de tudo, sem faltar aos seus deveres profissionais, escrevia livros para as aulas; compunha contos e romances, uma vez por outra; redigia o jornal Observador, que fizera nascer para apostolar a sua política liberal e patriótica, em 1878; e depois, a 2 de Novembro do ano seguinte, criava o Distrito de Viseu, que dirigiu, durante oito anos; cuidava da política para onde o arrastavam as solicitações dos amigos; fazia discursos nas assembleias populares, e cuidava finalmente do bem-estar da família.

Eleito deputado às cortes, por Mangualde, em 1879, estreou-se como orador parlamentar de excelentes recursos, ao propor que fosse considerado de gala nacional o dia do tricentenário de Camões.

A sua oração foi académica e elegante; avantajou-se-lhe extraordinariamente porém a que pronunciou como relator do projecto de lei da instrucção secundária, de 14 de Junho do ano seguinte, discurso erudito e que preencheu duas sessões do parlamento; que é um trabalho oratório e pedagógico de primeira ordem, e que mereceu gabos especiais da imprensa.

O livro, que relata o melhor discurso parlamentar de Símões Dias conta já duas edições de larga circulação.

Três legislaturas mais o tiveram por deputado: por acumulação de votos, a que vai de 15 de Dezembro de 1884 a 7 de Janeiro de 1887; por Pombal, a de 2 de Abril deste ano a 10 de Junho de 1889; e por Mértola, a de 19 de Abril de 1890 a 2 de Abril de 1892.

Os seus artigos de polémica, distintos pela vernaculidade da dicção e pelo tom irónico do ataque, nada ficam a dever à oratória parlamentar, que não tinha fulgurações Demosténicas, nem repentes arrojados e retumbantes, mas frases conceituosas e períodos de um colorido quente e incisivo.

Nos célebres comícios, que se celebrararam em 1882, contra o contrato Salamanca, a palavra então veemente e sempre correcta de Simões Dias produziu peças tribunícias, que foram altamente cotadas pelos jornais do tempo.

Foi ele quem à frente de uma numerosa comissâo distrital se dirigiu a el-rei D. Luiz, então de visita à Beira, pedindo a demissão do governo.

Apesar dessa agitação de vida, a robustez das suas faculdades mentais não deixava condenar ao abandono os assuntos escolares e as belas letras, excepção feita da poesia, que não viça em arruídos tumultuantes, nem floresce em terrenos de aluvião, estranhos à subjectividade do seu ser imaculado.

Pertencem à época Visiense, que atravessou o largo período de 1871 a 1886, as seguintes obras: - Compêndio de História Pátria, para as aulas primárias, 1872; Compêndio de Poética e Estilo, mais tarde refundido na Teoria da Composição Literária, 1872; História da Literatura Portuguesa, cuja 1ª edição saiu em 1875, com o título de Lições de Literatura Portuguesa e já atingiu a 9ª edição; As Mães, romance publicado no Porto, em 1877; O Pecado, romance impresso no Porto, 1878; Curso de Filosofia Elementar, de Balmes, tradução, Porto, 1878; A Flor do Pântano, romance de Carlos Rubio, tradução, Viseu, 1879; Elementos de Oratória e Versificação Portuguesa, refundida depois na História da Composição, Viseu, 1881; História da Filosofia, de Balmes, Porto, 1881; A Instrução Secundária, 1ª edição do Porto, 1880, e 2ª de Coimbra, 1883; e Manual da História e Análise, colaboração, Porto, 1883.

A musa cancionisla e trovadoresca de outros tempos porém desertara chorosa de Viseu, onde a escandalizavam os rasgos tribunícios e os artigos de polémica de Simões Dias; e ia refugiar-se no meio dos rosmaninhos floridos da pequena Benfeita, onde o seu amado nascera, onde o dilecto da sua feição popular, característica, bebera a água lustral da inspiração, que ela, a musa sertaneja de bom sangue, sincera, espontânea, lhe fizera beber nos seios maternos, quando ele o doido bandolinista, a definia assim:

É uma serrana bela
Que um dia encontrei no monte,
De madresilva e marcela
Toucada a virgínea fronte.

É uma gentil plebeia,
Pastora sadia e forte,
Que prefere o sol da aldeia
Ao gás dos salões da corte.

A testa espaçosa e bela,
O cabelo d'oiro fino
E uma túnica singela
Sobre o seu corpo divino.

Se aparecia, a coitada, de vez em quando, a uma réstia de sol nascente, era para repetir, a meia voz, soluçante, as trovas dos bons tempos de Coimbra, e deixar-se cair desalentada sobre a aresta das penedias, ao recordar-se do que o travesso descantava às morenitas do Guadalquivir:

Quem sou? - perguntareis moças de Espanha:
Sou das bandas que o límpido Mondego,
Com sua veia cristalina banha!
A minha terra em glória foi tamanha
Que a não excede a pátria de Riego;
Nos campos me criei da bela Inês;
Moças de Espanha, enfim, sou português!

Porque canto? - direis, lindas donzelas.
Que há-de fazer a gente quando é moço,
Sob este céu de fulgidas estrelas,
Ante essas raras perfeições, tão belas,
Que outras mais belas descobrir não posso?
Não pergunteis, ocidentais huris,
Pela razão dos cantos que me ouvis.

Eu canto como canta o passarinho
Pousado à tarde no rochedo alpestre,
Quando ao passar do doido torvelinho
Se lembra com saudade do seu ninho,
Onde aprendeu a descantar sem mestre;
Canto a capricho, canto sem lição,
Canto por comprazer meu coração.

Era verdade tudo isso; mas torvelinho mais doido ainda, onde revoluteavam paixões de uma turba, que rugia conveniências de ocasião, que não qualidades inatas, nem sentimentos do homem simples e boníssimo, de que ela se acercava - fizera que a voz do poeta emudecesse.

Mal empregado descaminho de quinze anos!

Que proventos, que honrarias, que posições deu a negregada política a Simões Dias?

A política não é a arte de bem governar, como se pensava e dizia na infância da palavra; é o barracão de feira franca, aonde primeiro chegam os que mais atropelam, gritam e ousam.

Madrasta dos países gastos, onde falha patriotismo, aventureira de mediano pudor, abraça-se aos atrevidos, que lhe arregaçam as mangas de colareja, e só os bem conhece e distingue no turbilhão ensurdecedor e capcioso, que a cerca, noite e dia.

Audaces... audazes...

Simões Dias não ousou, abroquelado na sua sinceridade espartana; gastou anos a palmilhar o caminho das secretarias de Estado, com os bolsos atulhados de pretensões dos beleguins eleitorais, tarimbeiros de ofício, adstritos ao barracão do ídolo, saltimbancos vários, que talvez hoje desconheçam o seu patrono; trabalhou afanosamente a favor de um partido, que levou todo esse largo tempo a explorar-lhe a valia; e por último nem ao menos viu baixar até ele o que tem subido ao próprio balcão das mercearias, uma simples Carta de Conselho.

Razões em barda tinha pois a donairosa musa do poeta para se lastimar, chorosamente, do abandono, em que se via a pobre apaixonada!

* * *

Transferido para Lisboa, em 1886, Simões Dias foi colocado no liceu desta cidade, como professor, por decreto de 16 de Setembro, e como chefe da respectiva secretaria, por despacho de 14 de Outubro do mesmo ano.

A seguir, em 1887 e 1888, teve a direcção do Correio da Noite, a que consagrou, como de costume, trabalho assíduo; fundou com Cândido de Figueiredo, Sanches de Frias e Oliveira Simões O Globo, folha diária, que atravessou um período de três anos, 1888 a 1891; e finalmente passou a redigir o Tempo, com Lobo d'Ávila e Oliveira Martins.

Em livro, imprimiu e reeditou as suas obras didácticas, e estampou, em edições do periódico portuense, orgão do professorado, a Educação Nacional, de que é constante colaborador, A Escola Primária em Portugal e um atado de contos, chamado Figuras de Cera criações de um molde palpitante de verdade, expresso em português de mestre, e de correcta anatomia, a que não escapou a própria figura do autor.

Curvando-se a desânimos provindos da crua experiência; a tanta protérvia do seu semelhante; a amarguras, quiçá, que ainda sangram, e até à negrura da época de todos nós, em que a civilização é uma mentira, como se acaba de proclamar, não pelo direito das gentes, da liberdade, justiça e progresso, mas pelo império da força - parece-nos que o modelador das Figuras de Cera pintou uma grande parte de si próprio, na melhor personagem do seu livro.

Cremos que não é desacerto o afirmá-lo.

Schopenhauer divide os escritores em duas classes distintas: os de vocação e os de profissão, notando que os últimos, para agradar ao público, abundam extraordinariamente e os primeiros são raríssimos.

Simões Dias, nos livros, onde a espontaneidade se manifesta, pertence aos primeiros; é um escritor de vocação.

Ao mencionar a sua entrada no liceu de Lisboa, onde actualmente o encontramos, é justo e preciso agora que falemos do professor.

Exercendo o magistério, desde os 15 anos, pode dizer-se, adquiriu, pela experiência e pelo estudo, não só o melhor método de ensino, mas também um saber variado e profundo.

Quer doutrinando sobre a maioria das disciplinas do curso dos liceus - a gramática, o latim; a literatura, a história e a filosofia, quer examinando, em concurso para o magistério, ou comissionado para fazer parte dos júris de exames nos diferentes liceus do reino - a sua competência profissional ficou sempre demonstrada e, o seu nome ileso de qualquer suspeita deprimente.

É esta uma asserção, que os seus próprios adversários não contestaram até ao presente.

Dos seus conhecimentos técnicos dão testemuho, os livros elementares, de que é autor, e que têm merecido não só a aprovação oficial, mas ainda a adopção nas aulas de instrução pública.

E, note-se bem, Simões Dias não é simplesmente um professor do quilate, que apontamos; é um pedagogista distinto.

Conhece bem a organização do ensino nos países estrangeiros; por vezes tem sido chamado e ouvido nas reformas dos estudos, que por cá se têm feito; e, para lhe atestar a competência pedagógica, aí nos apresenta livros da mais alta importância didáctica, como são - A Escola Primária em Portugal; A Instrucção Secundária, de que se fizeram duas edições, compreendendo o discurso parlamentar em defesa da lei de 14 de Junho de 1880, da qual foi relator, e a que já nos referimos; e a Pedagogia Oficial, outro livro recheado de excelente doutrina e larga e proficiente discussão sobre o transformismo liceal de 1895, comparado com as organizações similares no estrangeiro; e por fim campo de batalha, onde se repelem, em nome da ciência, as acusações que um professor do Curso Superior de Letras ousou fazer às doutrinas contidas na Historia da Literatura Portuguesa, com menos ciência e apoucada consciência.

Em resumo. Estes trabalhos, a par de outros, que andam dispersos em jornais, demonstram que a pedagogia moderna tem entre nós um apóstolo fervoroso, sincero e erudito.

Quem comparar, finalmente, o que era, antes de Simões Dias, o ensino nos liceus e o que é, depois da publicação dos seus livros, reconhecerá a influência, que ele tem exercido neste ramo didáctico.

* * *

Continua